Palavras são gratuitas. Mas, na boca de um chefe de Estado, podem custar caro a uma nação.
Por Benedito Dias
A diferença entre um líder político e um estadista está na cabeça. Não na quantidade de cabelos, mas na quantidade de neurônios. O primeiro disputa eleições; o segundo protege nações. O primeiro fala para sua torcida; o segundo mede cada palavra porque sabe que, em diplomacia, uma frase impensada pode custar mercados, investimentos, empregos e décadas de confiança entre países.
A recente passagem do presidente argentino Javier Milei pelo Brasil ilustra bem essa diferença. Veio ao país para uma agenda predominantemente política, sem encontro oficial com o presidente da República, subiu ao palco da sua torcida para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes. A questão não é o direito de discordar. Em uma democracia, divergências são naturais. O problema começa quando um chefe de Estado transforma a diplomacia em extensão do palanque.
Governantes passam. As nações permanecem.
Brasil e Argentina não são vizinhos de imóveis alugados: hoje mora João, amanhã mora José. Esses dois hermanos compartilham uma das mais importantes relações econômicas da América do Sul. Milhares de empregos dependem dessa convivência. Empresas, agricultores, indústrias e trabalhadores vivem de comércio, não de provocações ideológicas.
Há governantes que gastam tanto tempo penteando a própria ideologia que acabam esquecendo de pentear os cabelos. Isso pertence à estética e pouco importa. O problema começa quando o desalinho deixa os cabelos e alcança as prioridades do Estado. Aí, quem paga o preço é a nação.
Os cabelos de Milei desafiam o pente. Suas convicções desafiam os adversários. Quando ambas passam a desafiar também os interesses permanentes da Argentina, deixa de ser esquisitice e passa a ser problema de Estado.
Os cabelos pertencem à liberdade de cada um. Podem ser penteados para trás, para frente, para os lados ou simplesmente desafiados pelo vento. Cada um faz deles o que quiser. A diplomacia, porém, não pertence ao governante. Pertence ao Estado.
Talvez a diplomacia precise apenas encontrar uma passagem entre os fios rebeldes de Milei para alcançar o bom senso, ou o cérebro, talvez, sei lá.
Os antigos filósofos ensinavam que a virtude mora no equilíbrio. Aristóteles chamava isso de justa medida. Os diplomatas chamam de prudência. O povo chama simplesmente de bom senso.
Existe uma verdade que nunca envelhece: palavras são gratuitas. Suas consequências, porém, têm preço.
Na política, discursos inflamados rendem aplausos. Na diplomacia, rendem desconfiança. Insultos não assinam tratados, não sentam à mesa de negociações e não aproximam governos. Apenas aprofundam crises. A política permite extravagâncias; a diplomacia exige elegância.
Milei veio ao Brasil para participar de eventos particulares utilizando a estrutura do Estado argentino. Surge, então, uma pergunta inevitável: quem embarcou naquele avião? O presidente da República em missão de interesse nacional ou o líder de uma corrente ideológica? O dinheiro público financiou uma agenda de Estado ou um palanque internacional?
O avião presidencial pode transportar um presidente. Nunca deveria transportar prioridades que deixem o interesse nacional em segundo plano.
Há uma diferença entre convicção e fanatismo. A convicção dialoga; o fanatismo insulta. A convicção constrói pontes; o fanatismo levanta muros.
Quando um presidente troca o vocabulário da diplomacia pelo vocabulário da arquibancada, deixa de falar como chefe de Estado e passa a falar como chefe de torcida.
Milei, apesar dos cabelos eriçados, não precisa de pente para governar. Precisa de bom senso.
Talvez seja essa a maior lição desse episódio. Os cabelos de Milei pertencem ao barbeiro. Suas palavras pertencem à História. E a História costuma ser muito menos indulgente do que qualquer cabeleireiro.
Porque, no fim das contas, a inteligência de um estadista não se mede pelo tamanho das suas convicções, mas pela capacidade de administrá-las sem ferir os interesses permanentes da nação.
Os cabelos podem se despentear sem maiores consequências. A diplomacia, não. Porque cabelos voltam ao lugar com um pente; relações entre nações, às vezes, levam décadas para serem reconstruídas.







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