Direita que vota em Flávio é burra

Por Benedito Dias

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No Brasil existe direita e direita. Tem a direita religiosa, encabrestada, que acha que a Terra é plana, e a direita liberal.

Não resta dúvida de que Bolsonaro ressuscitou a direita no Brasil. Inacreditavelmente, um ser humanamente inacabado conseguiu, depois de arquitetar a maior engenharia de fake news da história política brasileira, transformar mentira e ódio em instrumentos de poder.

Não foi fácil ver o povo evangélico, que deveria estar vacinado contra a mentira, alimentando-se dela todos os dias. Não mentir é um mandamento bíblico. O crente é doutrinado a não mentir. A mentira, além de integrar os Dez Mandamentos de Moisés, é apresentada no Evangelho de João 8:44 como filha do diabo.

Desde 2017, a Igreja de Jesus vem sendo ostensivamente bombardeada por essa bomba exterminadora. O resultado foi o que todo mundo viu: um candidato eleito em 2018 — e empossado em 2019 — pela conjugação de duas forças poderosas: a mentira e o ódio.

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Biblicamente, não tinha como dar certo. É uma casa edificada sobre a areia. Vêm os ventos, vêm as tempestades, e ela desaba. Foi o que aconteceu. Deu tudo errado!

No momento político em que Bolsonaro poderia ter sido mais amável diante de um custo de vida altíssimo — arroz a R$ 45, carne de segunda a R$ 50, gasolina a R$ 9, fila do osso e carcaça de frango a R$ 13 —, ele poderia ter socorrido o povo com a vacina. Preferiu, porém, brigar com João Doria, que havia articulado a importação de tecnologia chinesa para a produção da CoronaVac pelo Instituto Butantan.

Deu tudo errado!

Bolsonaro não se vacinou, pregou contra a vacinação, negou evidências científicas, entrou em choque com orientações sanitárias, não usou máscara, receitou medicamentos sem qualificação para tal e respaldo científico, debochou de pessoas morrendo sem ar, atacou jornalistas e ajudou a criar, nas redes sociais, uma corrente de apoio às suas ideias contra a vacinação.

E hoje, seu filho Zero Um, herdeiro do legado político, incorpora as mesmas ideias, com agravantes. Ele diz que o pai, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, é quem vai passar a faixa presidencial para ele na cerimônia de posse. Isso é grave, porque sugere uma ruptura com os protocolos institucionais e constitucionais. Bolsonaro está preso. Como, sem autorização judicial, poderá se deslocar da prisão até o Palácio do Planalto?

Como se não bastasse essa insensatez, quando perguntado, em entrevista à Globo, sobre aquecimento global, Flávio Bolsonaro demonstrou ceticismo em relação ao consenso científico sobre o fenômeno e afirmou que poderia combater calor, seca e enchentes com tratamento de esgoto.

O nível de despreparo parece ser maior que o do pai.

E aí? Uai, fazer o quê?

Se Ronaldo Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury tiverem pelo menos dois neurônios cada um, continuarão com suas candidaturas postas, ainda que com desempenho pífio, para ajudar na eleição de suas bancadas — estadual e federal, porém, num eventual segundo turno, não deveriam apoiar Flávio.

Por quê? Por uma questão óbvia. Flávio eleito terá quatro anos de mandato, com possibilidade de reeleição por mais quatro. Depois de oito anos, virá o bolsonarista Tarcísio de Freitas, também com quatro mais quatro. Depois, poderá vir Flávio novamente ou Eduardo, com todo o peso da máquina política construída pelo bolsonarismo.

Adeus, Zema, Caiado, Renan, Cury e companhia limitada.

Assim, para eles, é melhor deixar Lula ser tetra.

Com um olhar meio vago, sem zarolhamento, percebe-se que o presidente Lula não tem, hoje, um sucessor capaz de sucede-lo em 2030, derrotando essa direita raivosa e endinheirada que aí está. Se Lula for tetra, 2030 poderá ser a grande oportunidade para uma nova direita — uma direita sem Bolsonaro e sem o bolsonarismo.

Visto assim, é a vez de Zema, Caiado, Cury ou Renan. Eles terão quatro anos para observar, de forma mais isenta, as ações do governo Lula, sua relação com o Congresso Nacional, seus acertos e erros, para não cometerem os mesmos erros do mito.

Terão tempo para aprender que governar exige sensibilidade diante do povo, menos egoísmo, menos culto à personalidade, respeito às instituições, à soberania nacional e à forma republicana de governar.

Se Flávio vencer agora, essa porta poderá se fechar por pelo menos oito anos. Se Lula vencer, ao contrário, 2030 poderá ser o momento de a direita escolher um novo caminho.

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