Por Benedito Dias
(Ainda bem que preço é diferente de valor)
Ainda bem mesmo. Imagine se valor e preço fossem a mesma coisa! A gente teria que calcular ética em centímetros, medir caráter em quilates, e avaliar princípios com a mesma tecnologia que a Petrobras usa para sondar petróleo em águas profundas. E olhe lá — porque princípios ficam nas camadas geológicas da alma, nos recantos que exigem um exame de consciência raro em seres humanos duvidosos. Quando a liberdade vira moeda e a política vira leilão, não é candidatura, é liquidação. Num país marcado pela eterna luta do grande contra o pequeno, do rico contra o pobre, do branco contra o negro, é constrangedor ainda ver político transformando a política em balcão de negócios.
A disputa vira rótulo: se é rico, é trabalhador; se é pobre, é preguiçoso; se é analfabeto, é burro; se é negro, é bandido; se é religioso, é manipulado; se é homossexual, é depravado. Todo dia, um novo absurdo emerge da caverna da ignorância.
Nesta semana, no Rio Grande do Sul, uma chefe registrou a nova senha de acesso ao computador de uma funcionária negra como “macaco@20226”. E ainda disse: “Pra você nunca mais esquecer”.
Em pleno século XXI, ainda tem gente achando que sangue de negro não é humano. Desmond Tutu lembrou: “Não existe sangue negro ou branco. Existe sangue humano.”
Lima Barreto já denunciava essa mentalidade fétida da nobreza ignorante: a elite brasileira tem horror à realidade do próprio país.
Pois bem. Enquanto o país tenta dar alguns passos rumo à saúde, segurança, educação, redução da pobreza, igualdade e justiça social — surge esse combo raro de prateleira alta — um “artigo” novo no mercado: a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
Sim, porque ela se apresenta como produto, objeto, mercadoria com etiqueta. Um desastre político embalado a vácuo.
A candidatura, lançada informalmente pelo pai — que se autoproclama “dono da direita” — chega ao público como caminhão sem freio na descida. Desgovernado, na primeira fala, Flávio supera qualquer expectativa ao já anunciar o preço da própria candidatura.
E aí começam os problemas:
Primeiro: o gesto é imoral.
Ser candidato à Presidência não é anúncio na OLX. Envolve debate, legitimidade, viabilidade e um projeto de país.
Segundo: uma vez lançada, uma candidatura à presidência da República deixa de ser patrimônio privado.
Passa a ser questão pública, coletiva, do povo.
Como disse Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem.”
Mas alguns querem apenas negociar.
E é aí que a vergonha vira espetáculo: a candidatura de Flávio é tratada como mercadoria.
Foi posta na vitrine por um único motivo: ser negociada.
Quem dá mais?
A lei da oferta e da procura rege o movimento.
Se a Faria Lima quer Tarcísio, o preço é a anistia.
O que Bolsonaro pai quer?
Que o mercado compre sua liberdade como quem compra lote no atacarejo.
A primeira ação de Flávio, após ser ungido pré-candidato, não foi conversar com lideranças da direita, nem discutir com o dono do PL, muito menos pensar um projeto econômico para 220 milhões de brasileiros.
Nada disso.
A prioridade foi:
exigir a aprovação da anistia do pai preso por tentativa de golpe de Estado.
Que vergonha.
Que desprezo pela República.
A inversão é tão grotesca que faria Ruy Barbosa levantar do túmulo para repetir:
“De tanto ver triunfar as nulidades… o homem chega a ter vergonha de ser honesto.”
Depois de sair de um culto em Brasília, Flávio admitiu desistir da candidatura:
— “Olha, tem a possibilidade de eu não ir até o fim… Eu tenho um preço… vou negociar… vou falar pra vocês qual é o preço…”
E aí está o jogo.
A bola nem rolou e o placar já está sendo decidido no vestiário.
Da sede da Polícia Federal ecoam as ordens de escalação: quem defende, quem lança, quem joga pelo centro e quem ataca pela direita.
A tática é só uma: marcar a esquerda. Empurra, bate, derruba, use pé, peito, cabeça, mão — mas chute. Cada gol, em 2026, vale prêmio milionário.
Como diria Nelson Rodrigues: “Os idiotas perderam a modéstia.”
E, neste caso, ganharam um plano de governo que cabe numa placa de “vende-se”.
E o preço? Ah, preço… qualquer um estipula.
A República virou supermercado.
E a democracia, balcão de negócios.











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