Operação da Polícia Federal investiga suspeitas envolvendo recursos públicos e a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro; no mesmo dia, Augusto Cury coloca explicações sobre o filme como condição para eventual apoio a Flávio Bolsonaro
O que começou como uma cinebiografia sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro ganhou, nesta quinta-feira, 10, uma dimensão que ultrapassa o cinema e alcança diretamente a disputa presidencial de 2026.
O filme “Dark Horse”, que pretende contar a trajetória do ex-presidente, voltou ao centro do debate político depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, investigação que apura suspeitas de desvio de recursos públicos relacionados à produção da obra.
Ao mesmo tempo, o presidenciável Augusto Cury (Avante), que aparece como uma das alternativas à polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, declarou que poderá apoiar Flávio em um eventual segundo turno — mas estabeleceu condições.
Entre elas está justamente a necessidade de que Flávio explique e comprove que não houve corrupção no financiamento de “Dark Horse”.
A operação
A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), apontado como produtor executivo e roteirista do filme, e a produtora Karina Gama, ligada à Go Up Entertainment.
Segundo a investigação, o foco está na possível utilização irregular de recursos provenientes de emendas parlamentares que teriam sido destinados a uma organização da sociedade civil e posteriormente movimentados por empresas relacionadas à produção do filme.
A apuração também identificou movimentações financeiras consideradas suspeitas pela Polícia Federal. Em um dos pontos investigados, a PF suspeita que R$ 750 mil tenham chegado à produtora do filme a partir de recursos que tiveram origem em emendas parlamentares.
A investigação não significa, neste momento, condenação dos envolvidos. Trata-se de uma apuração policial sobre possíveis irregularidades, que ainda deverá seguir seus caminhos na Justiça.
Mario Frias no centro da apuração
Mario Frias é um dos principais nomes alcançados pela operação.
Segundo a Polícia Federal, o deputado realizou transferências de aproximadamente R$ 645,4 mil para a GoUp Entertainment, empresa responsável pela produção do filme. A PF questiona a compatibilidade desses valores com os rendimentos declarados pelo parlamentar e investiga sua participação no circuito financeiro analisado.
A investigação também aponta uma coincidência temporal entre a destinação de emendas parlamentares e o período de produção de “Dark Horse”.
Uma das emendas, no valor de R$ 1 milhão, foi destinada ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), para um projeto de empreendedorismo. De acordo com a investigação divulgada nesta quinta-feira, o projeto não teria sido executado como previsto.
Os fatos ainda estão sob investigação.
E onde entra Flávio Bolsonaro?
É aqui que a história deixa de ser apenas uma investigação sobre a produção de um filme e passa a tocar diretamente a eleição presidencial.
Flávio Bolsonaro não é alvo da Operação Make Up, segundo as informações divulgadas nesta quinta-feira. Ele, porém, aparece em outra frente de investigação relacionada ao financiamento de “Dark Horse”, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O senador nega irregularidades e classificou a operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, como uma tentativa de interferência política na eleição.
Flávio também sustenta que não houve utilização de recursos públicos no financiamento do filme.
São, portanto, duas coisas que precisam ser separadas: há investigações distintas relacionadas ao filme e não há, até o momento, condenação que estabeleça que Flávio Bolsonaro tenha cometido crime.
Cury coloca o filme na mesa do segundo turno
Enquanto a Polícia Federal realizava a operação, Augusto Cury fazia uma declaração que acrescentou uma nova dimensão política ao caso.
O candidato do Avante afirmou que poderá apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula em um eventual segundo turno, desde que Flávio consiga esclarecer a questão envolvendo o financiamento de “Dark Horse” e demonstre que não houve corrupção.
Cury também condicionou eventual apoio à assinatura, em cartório, de um compromisso relacionado ao cumprimento de seu plano de governo.
A declaração ganha peso porque Cury aparece atualmente como terceira força em diferentes levantamentos eleitorais.
Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira, Lula aparece com 43% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 37,4% e Augusto Cury entre os nomes seguintes. O levantamento ouviu 5 mil eleitores entre 4 e 9 de setembro e foi registrado no TSE sob o número BR-01452/2026.
Ou seja: mesmo que Cury não chegue ao segundo turno, seus votos podem se tornar decisivos para quem chegar.
O filme que virou questão eleitoral
“Dark Horse” significa, em tradução livre, “azarão” — expressão utilizada para designar alguém que não aparece inicialmente como favorito, mas surpreende e vence.
O próprio título da produção remete à trajetória de Bolsonaro em 2018, quando ele chegou à Presidência contrariando previsões e enfrentando uma disputa marcada pela polarização política.
Agora, oito anos depois, o termo ganha uma ironia própria da política.
O filme sobre o “azarão” de 2018 tornou-se objeto de uma investigação policial justamente no momento em que seu filho disputa a Presidência e tenta construir uma nova trajetória eleitoral para o sobrenome Bolsonaro.
E, ao redor dessa história, estão dinheiro, emendas parlamentares, empresas, produtores, investigação policial, Supremo Tribunal Federal e uma eleição presidencial em andamento.
O que está comprovado e o que ainda está sendo investigado?
Para o eleitor, talvez essa seja a parte mais importante.
É fato: a Polícia Federal realizou nesta quinta-feira uma operação com 49 mandados de busca e apreensão relacionados à investigação sobre possíveis desvios de recursos públicos ligados à produção de “Dark Horse”.
É fato: Mario Frias e Karina Gama estão entre os alvos da operação.
É fato: existem investigações distintas envolvendo o financiamento do filme e a relação de Flávio Bolsonaro com o empresário Daniel Vorcaro.
É fato: Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que não houve utilização de dinheiro público no filme.
É fato: Augusto Cury declarou que eventual apoio a Flávio no segundo turno dependerá, entre outras condições, de esclarecimentos sobre o financiamento da produção.
Ainda está sob investigação: se houve efetivamente desvio de recursos públicos, quem teria participado de eventual esquema e qual foi o destino final dos valores questionados.
E a eleição?
O episódio coloca uma questão nova sobre a mesa.
A disputa presidencial de 2026 não acontece apenas entre candidatos. Ela também é uma disputa por narrativas, confiança e capacidade de explicar fatos que podem atingir diretamente a imagem dos concorrentes.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio é responder às suspeitas que envolvem o universo do filme e, ao mesmo tempo, sustentar sua candidatura diante de um eleitorado que começa a decidir o segundo turno.
Para Augusto Cury, a questão é ainda mais estratégica: seus votos podem adquirir valor político justamente porque ele aparece fora da polarização tradicional.
E para o eleitor, permanece a pergunta fundamental:
o que há por trás de “Dark Horse” e quanto essa história poderá pesar na eleição presidencial de 2026?
O filme ainda não chegou às telas.
Mas, politicamente, “Dark Horse” já entrou em cena.
© 2026 Gladis Helena Santiago / Jornal Popular Catarinense – JPC
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Autoria original: Gladis Helena Santiago
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