O Clã mostrou a que veio

Por Benedito Dias

ANUNCIO

Sou evangélico. E não escrevo aqui para culpar meu segmento como um todo pelo desastre que o chamado “Clã” causou à imagem da igreja cristã. Mas seria covardia não falar aquilo que avalio ser verdade.

De 2017 para cá, parte da liderança evangélica permitiu acesso aos púlpitos a políticos, os mais mascarados possíveis. Lembra de Jesus quando chegou em Jerusalém montado num jumento? Pois é! Ele foi direto para o templo e, com um chicote, virou mesas e expulsou os mercadores que usavam a casa de Deus com desvio de finalidade. Santo Agostinho disse que o templo não foi feito para barganhar. Quando o púlpito vira palanque, o templo se profana. Essa é a grande verdade que muitos não querem ouvir.

Paralelamente à utilização dos púlpitos para trabalhos políticos partidários, ocorreu naturalmente o descrédito da igreja cristã, pois além dessa abertura escancarada, muitos pastores trocaram a paixão pelas almas por mandatos eletivos. Estrategicamente, foi criado o slogan “Deus, Pátria e Família” para facilitar o acesso ao coração cristão. Virou bordão de campanha e até tema de sermões. Mas Deus nunca empresta Seu Nome a slogans de marketing.

Não querendo apontar o dedo para ninguém, mas já apontando, a presença do fenômeno da direita nos púlpitos da igreja estragou a fé cristã. A proposta era de defesa da pátria e da família. Mas Deus estava na frase. Deus também precisava ser “defendido”? Pense nisso!

ANUNCIO

O protagonista, que se vendia como defensor da família, apresentou uma trajetória pouco espelhável para o conservadorismo que dizia representar. O patriarca cegou a todos, ou quem viu não quis enxergar? Os interesses espúrios cegam olhos, emburrecem mentes e destroem dignidades. Hoje, as páginas globais contradizem o discurso público. O problema não é a falibilidade humana, mas vender moral como produto, enquanto se vive o oposto nos bastidores.

Lamentavelmente, nós, evangélicos, padecemos de certos cuidados. Nossas lideranças, muitas, interessadas no espúrio, se omitiram da verdade e permitiram que o rebanho fosse tocado como gado, sem pasto, sem pastor, apenas conduzido pelos campos de interesse do momento. Hannah Arendt já alertava: “Quando todos são culpados, ninguém é.” Mas quando alguns se calam por conveniência, todo o corpo paga.

O Clã tinha pouco ou nada de exemplo para protagonizar o modelo de família. Lá, para entender os laços familiares, tem que bater cabeça. Quem é quem? Filho ou filha de quem? Esposa, noras, netos — um emaranhado genético digno de análise. O que tem de errado nisso? Nada, sei lá. Ou talvez tudo, para quem, moralmente, se apresenta como paladino da moral.

O Clã pode ter sido vítima de erros de relacionamentos conjugais, como todos podem ser, mas hoje o Clã está nas páginas nacionais e internacionais por brigas políticas, numa demonstração de que, para eles, família não está acima de tudo. A madrasta botou a boca no trombone e revelou que os afilhados não fazem política em função do ser humano. Isso é grave, afinal, ela sabe do que está falando. Aliás, isso revela o lado escuro da família “conservadora” — protagonista da moralidade — e mostra que a convivência em família por aquelas bandas nunca foi céu.

O Clã mostrou a que veio. E a igreja agora precisa mostrar a quem serve: a Deus, ou aos ídolos que tomam Seu Nome em vão.

Publicar comentário