Uma vida de luta

Manoel Dias deixa a política catarinense aos 88 anos, mas permanece na história do trabalhismo e da democracia

ANUNCIO

Santa Catarina se despediu, em 22 de agosto, de um homem cuja vida pública atravessou mais de seis décadas de história. Manoel Dias, o “Maneca”, morreu aos 88 anos, em Florianópolis, depois de um período de hospitalização provocado pelo agravamento de seu estado de saúde.

Mais do que registrar cargos ocupados, sua trajetória exige olhar para o tempo em que começou. Natural de Içara, Manoel Dias entrou na vida pública ainda jovem. Em 1962, foi eleito vereador pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Dois anos depois, o golpe militar mudou o rumo de sua história: teve o mandato cassado e permaneceu preso por 11 meses.

Mesmo diante da perseguição política, não abandonou a vida pública. Participou da construção do MDB em Santa Catarina e, em 1966, foi eleito deputado estadual. Exerceu o mandato entre 1967 e 1971 e integrou a Assembleia Constituinte de 1967. Com a edição do AI-5, voltou a ser atingido pela repressão. Em 1969, teve novamente o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos.

A política, entretanto, continuaria sendo seu caminho.

ANUNCIO

O trabalhismo como escolha

Com a anistia e a retomada da vida política brasileira, Manoel Dias participou, ao lado de Leonel Brizola e outras lideranças, da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), em 1980. Em Santa Catarina, tornou-se uma das principais referências da legenda e exerceu a presidência estadual.

Sua relação com Brizola foi uma das marcas de sua caminhada. O trabalhismo, para Manoel Dias, não ficou restrito a uma sigla: tornou-se uma identidade política associada à defesa dos direitos sociais, da educação, da democracia e da soberania nacional. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina destaca justamente essa permanência de suas bandeiras ao longo da vida pública.

Décadas depois de iniciar sua trajetória, chegou ao governo federal. Em 2013, assumiu o Ministério do Trabalho e Emprego, função que exerceu até outubro de 2015, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff. Registros oficiais do Ministério do Trabalho documentam sua atuação à frente da pasta em temas ligados ao emprego, às relações de trabalho e às políticas voltadas aos trabalhadores.

A despedida

Na segunda-feira, 24 de agosto, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina abriu suas portas para a despedida. Familiares, amigos, companheiros de partido, autoridades e lideranças políticas estiveram reunidos no plenário da Alesc para prestar as últimas homenagens.

Manoel Dias deixa a esposa, Dalva Maria de Luca Dias, dois filhos, noras e netos. Deixa também uma trajetória que não pode ser compreendida apenas pelos cargos que ocupou.

Há homens que passam pela política. Outros acabam se tornando parte da história política de seu tempo.

Manoel Dias pertence a essa segunda categoria.

Foi vereador, deputado, constituinte, dirigente partidário e ministro. Foi perseguido, preso e cassado durante a ditadura. Recomeçou depois da anistia e ajudou a construir um partido que se tornaria uma das principais expressões do trabalhismo brasileiro.

Sua morte encerra uma trajetória pessoal, mas não apaga as marcas deixadas por uma vida inteira dedicada à política.

Em tempos de tantas mudanças, a história de Manoel Dias também lembra que democracia não é uma herança pronta. Para sua geração, ela foi uma conquista que custou coragem, resistência e persistência.

E talvez seja esse o legado que permaneça quando os cargos deixam de existir: a coragem de continuar acreditando naquilo que se escolheu defender.

Publicar comentário