Por Benedito Dias
O candidato a presidente Ronaldo Caiado surpreende negativamente. Vendeu durante anos uma imagem de eficiência como governador de Goiás. Sua vida pública — deputado, senador e duas vezes governador do Estado do agronegócio — deu-lhe credenciais para se apresentar como homem austero, inclusive na segurança pública, sobretudo para quem confunde segurança com polícia valente.
Quem mora em Goiás e é isento, pragmático, enxerga a realidade com menos paixão partidária, e não sabe que o embrulho é mais bonito que o presente.
A segurança pública de Caiado parece padecer de inteligência, prevenção e ressocialização. Quando diz que “em Goiás bandido não se cria”, a mensagem parece resumir-se à repressão e à prisão. Mas, depois da prisão, o que acontece? Para onde vão os criminosos de Goiás? Fugiram para a Bahia, Ceará, Rio de Janeiro ou São Paulo? Ou para… sei lá… deixa pra lá.
Segurança pública não é apenas prender. Passa por educação, trabalho, inteligência, prevenção, ressocialização e pela capacidade de devolver o infrator à sociedade.
Mas quem é Ronaldo Caiado?
É integrante de uma tradicional elite agrária do Centro-Oeste, médico ortopedista e pertencente a uma família historicamente ligada a grandes propriedades rurais em Goiás. Na televisão, apresenta-se sorridente e afável. Esse é o Caiado da TV.
Mas existe o Caiado político, da fala dura e dos “meus”: “meu Estado”, “minha polícia”, “meu governo”.
Caiado impressiona pelo vozeirão e pelo timbre grave. Mas voz grossa não é sinônimo de conteúdo.
E foi exatamente essa impressão que não impressionou quando chegou sua vez na Globo. Frente a frente com César Tralli e Renata Vasconcellos, na minha avaliação, falou fino. Na avaliação dos colunistas de O Globo, sua sabatina recebeu nota média de 1,4 numa escala de 1 a 5.
Entre os candidatos da direita, foi, para mim, o mais fraco: faltaram conteúdo e propostas convincentes. Seu discurso parece uma música de duas notas: segurança pública e críticas a Lula.
Gostando ou não de Lula, criticando ou não o seu governo, é inegável que seus governos implantaram políticas de transferência de renda e inclusão social que alcançaram milhões de brasileiros pobres.
Romeu Zema, mesmo com seus defeitos, apresentou propostas de gestão, números de Minas Gerais e reforma tributária. Renan Santos, jovem e sem experiência administrativa, também apresentou ideias. Algumas são polêmicas, mas falou sobre soberania, defesa, corte de gastos, Previdência e até bomba atômica.
Política presidencial exige mais do que coragem para falar grosso. Exige preparo, equilíbrio, conhecimento institucional e projeto de país.
O modelo Bukele
Parte da direita quer o modelo Bukele de segurança pública para o Brasil. Perguntado pelo Brasil Paralelo, em 11 de junho de 2026, sobre o sucesso da política salvadorenha, Caiado elogiou o modelo, mas, diferentemente de Flávio, Zema e Renan, disse não ser o modelo adequado para o Brasil.
Pelo menos isso, né?
Nayib Bukele reduziu drasticamente a violência em El Salvador, porém, recorrendo à violência e a medidas de exceção. Seu modelo é criticado por detenções arbitrárias, abusos e restrições às garantias fundamentais.
O que se quer? Combater o crime ou importar métodos que atropelam direitos? O Brasil precisa de polícia forte, inteligência, investigação e combate às facções. Mas tudo dentro da Constituição.
O “meu Estado”
Caiado parece ter o costume da possessão: “meu Estado”, “minha polícia”, minhas forças armadas”, “meu governo”.
Pode parecer apenas linguagem. Não é.
Governador não é dono do Estado. Presidente não é dono da República. A polícia não é “do presidente”; pertence ao Estado e serve à sociedade. É a velha linguagem do coronel, do dono da fazenda que confunde o público com o privado.
E a anistia?
Caiado promete anistia para os envolvidos no 8 de Janeiro, incluindo Bolsonaro, e defende levar a proposta ao Congresso. Questionado sobre o STF, afirmou que sua eleição seria “plebiscitária” e que o Supremo não poderia se sobrepor à vontade popular.
Aqui está outro problema. Eleição não transforma presidente em soberano. O Congresso legisla, o Executivo governa e o Judiciário julga. Cabe ao STF a guarda da Constituição, conforme o artigo 102.
Uma lei de anistia pode ser proposta e aprovada pelo Congresso. E, como qualquer lei, pode ser submetida ao controle de constitucionalidade.
O presidente não governa acima da Constituição.
Afinal, quem está preparado?
Zema pode ser criticado por ser frio, mas demonstrou conhecer o jogo administrativo. Renan pode ser criticado pela inexperiência, mas apresentou ideias.
Caiado, entretanto, parece acreditar que governar o Brasil é ampliar para Brasília o modelo de Goiás.
E o Brasil não é Goiás.
O Brasil não é uma fazenda.
O presidente não é coronel.
Não tem esse negócio de “minha polícia”, “meu Congresso”, “meu Judiciário”. Aliás, tem gente aí que falou grosso, disse que não cumpriria mais ordens do Judiciário e que jogaria dentro das quatro linhas da Constituição. Hoje está jogando entre as quatro paredes da prisão.
Por aqui, a República tem mandato, tem limites e tem Constituição.
Por isso, a pergunta:
Ronaldo Caiado é forte para governar Goiás, mas está preparado para governar o Brasil?









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