O carnaval de rua de Imbituba ganhou um novo — e ao mesmo tempo antigo — fôlego com o surgimento do Bloco Oh Imundiça, uma manifestação popular que mistura memória familiar, homenagem afetiva e o resgate das tradições carnavalescas que marcaram gerações no município.
O bloco nasceu oficialmente em 2024, a partir de uma transformação profunda. Antes chamado Mamãe Eu Quero, o grupo decidiu mudar de nome após a morte de Lilian Brum, figura central da família fundadora e presença marcante no carnaval local. A decisão foi tomada de forma quase intuitiva, ainda no momento do luto, como uma forma de eternizar sua alegria, sua irreverência e sua maneira única de chamar as pessoas.
“Ela chamava todo mundo de ‘imundiça’. Chegava na praia e dizia: ‘Ô seus imundiça!’. Era o jeito dela, carinhoso, debochado, alegre. O bloco virou isso”, conta a presidente do bloco, Giane Brum
A expressão, repetida ao longo da vida de Lilian, virou nome, identidade e grito de carnaval: Oh Imundiça.
Carnaval de família, de rua e de memória
A história do bloco está profundamente ligada à própria história do carnaval em Imbituba. A família fundadora sempre participou ativamente da festa popular, desde os tempos do antigo Clube Sete, onde pais e filhos cresciam pulando carnaval juntos. Fantasias improvisadas com lençóis, blocos do sujo, visitas aos bares do bairro e a troca simbólica — uma cerveja aqui, uma cachaça ali — fazem parte da memória afetiva que hoje sustenta o Oh Imundiça.
“Não tinha dinheiro, mas tinha alegria. A gente fazia carnaval na coragem”, relembra.
Esse espírito segue vivo. O Oh Imundiça se define como um bloco familiar, gratuito, inclusivo e comunitário, onde não há distinção de idade, classe social, raça, credo ou origem. Quem vê o bloco passar, acaba seguindo: pedestres, carros, turistas e moradores se juntam espontaneamente ao cortejo.
Resgate cultural como bandeira
Mais do que festa, o bloco se assume como um ato de resgate cultural. A cada ano, a marchinha do Oh Imundiça traz referências diretas à história do carnaval local, citando antigos blocos e escolas de samba que marcaram época em Imbituba, como o Vai Quem Pode, o Sete e tantos outros que ajudaram a construir essa tradição.
“O tema cultural é resgatar o passado. É trazer de volta o carnaval de antigamente, aquele que reunia famílias, vizinhos e amigos na rua”, explica a organização.
Entre os símbolos que fortalecem essa identidade estão a baleia-franca, patrimônio imaterial e símbolo de Imbituba, e a própria memória de Lilian, homenageada de forma permanente. A data do desfile do bloco, inclusive, foi escolhida em referência ao aniversário dela: 22 de agosto.
Um bloco feito na coragem
Sem depender de poder público ou grandes patrocínios, o Oh Imundiça se organiza de forma coletiva. A estrutura do bloco nasce da colaboração: amigos, familiares, comerciantes e apoiadores ajudam como podem. A música, por exemplo, começa a ser pensada logo após o fim de um carnaval para o próximo ano, em um processo contínuo de criação e pertencimento.
“A organização é nossa. A força é nossa. A gente vai na coragem, e é difícil receber um não”, afirma a presidente.
Luto, homenagem e continuidade
O maior desafio desde a criação do bloco foi seguir adiante sem a presença física de Lilian. O primeiro desfile após sua morte foi marcado por emoção intensa, lágrimas e homenagens espontâneas. Pessoas que nunca haviam participado do carnaval voltaram às ruas apenas para prestar tributo a ela.
“Foi marcante ver pessoas mais velhas, que não saíam mais de casa, indo pro bloco por causa dela. Isso mostrou que a gente precisava continuar.”
Hoje, o Oh Imundiça segue como um bloco de resistência cultural, memória viva e celebração da vida. A proposta é crescer sem perder a essência, fortalecendo o trabalho de base, a divulgação comunitária e o espírito coletivo.
“Cultura é não deixar morrer aquilo que a gente construiu. São mais de 50 anos de carnaval passando de geração em geração. O bloco é isso: memória, alegria e continuidade.”











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