Por Benedito Dias
A comunicação entre governo e igreja evangélica sempre foi difícil — não apenas por falhas institucionais. De um lado, governos que historicamente não souberam dialogar com o segmento; de outro, uma parcela significativa da igreja que, influenciada por narrativas políticas, optou por satanizar determinados governos. O resultado é um abismo sustentado mais por versões do que por fatos.
Nos últimos anos consolidou-se um fenômeno curioso: toda ação pública voltada às camadas mais pobres tende a ser desacreditada ou atribuída ao governo anterior. A transposição do Rio São Francisco é exemplo emblemático. A ideia remonta ao Império, foi estruturada e executada majoritariamente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que concluíram cerca de 90% das obras. Ainda assim, a narrativa de que Jair Bolsonaro “levou água ao Nordeste” prosperou com impressionante facilidade. A mentira convence sem esforço; a verdade quase sempre vem acompanhada de um “será?”.
Numa mente desinformada cabe tudo: que gasolina de R$ 9,00 é melhor que a de R$ 6,40; que arroz de R$ 45,00 é mais vantajoso que o de R$ 25,00; que carne a R$ 50,00 é mais vantajosa que a de R$ 32,00; que a fila do osso foi invenção; que o menor índice de desemprego em duas décadas é propaganda paga; que o 8 de janeiro foi roteiro de Hollywood; que os assassinos de Marielle Franco pertencem à esquerda. Quando a política substitui os fatos, a lógica pede demissão.
Com amplo apoio evangélico, a direita — antes politicamente enfraquecida — chegou ao poder. Foram quatro anos de aplausos, vigílias, orações e “profecias”. Mas qual ato normativo concreto beneficiou institucionalmente o segmento evangélico? A alteração no Código Civil que garantiu maior segurança jurídica às igrejas ocorreu nos governos petistas. O Dia Nacional do Evangélico foi sancionado por Lula. A Marcha para Jesus recebeu reconhecimento oficial no mesmo período. O Dia Nacional do Pastor e da Pastora, e o Dia Nacional da Música Gospel, também.
Recentemente, o presidente Lula assinou decreto reconhecendo manifestações evangélicas como expressão cultural nacional, ampliando acesso a políticas públicas de incentivo e preservação artística. Do ponto de vista jurídico-cultural, é medida relevante. No entanto, dentro de muitas igrejas, o silêncio foi ensurdecedor. Nenhuma celebração, nenhum reconhecimento. Por quê?
A iniciativa partiu da senadora maranhense Eliziane Gama. A igreja, embora organização privada, exerce papel público relevante, especialmente no enfrentamento da violência e da dependência química. Enquanto o Estado investe milhões em políticas de recuperação, comunidades terapêuticas ligadas a igrejas realizam transformações profundas, muitas vezes começando com uma oração. Ignorar essa parceria é negar a realidade social brasileira.
Uma reflexão se impõe: a relação entre a direita conservadora e o eleitorado evangélico parece, muitas vezes, orientada por interesses de grandes lideranças, não por ameaças reais à liberdade religiosa — cláusula pétrea da Constituição. O discurso sobre “ideologia de gênero” funciona como combustível emocional, mas não há proibição legal de se pregar a favor ou contra qualquer pauta moral. A preocupação central parece ser outra: financeira.
Recursos da igreja devem servir aos seus propósitos — evangelização, educação, assistência social, comunicação. Quando se desviam para interesses pessoais dissociados da missão estatutária, devem, sim, submeter-se ao crivo do fisco. Talvez aí resida a razão de alianças tão estreitas e inflamadas.
A questão central não é se governos gostam ou não dos evangélicos, mas se a comunidade está disposta a avaliar políticas públicas por seus efeitos concretos, e não pela etiqueta ideológica de quem as executa. Quando a fé se torna instrumento de disputa partidária, a verdade dá lugar à conveniência — e isso enfraquece tanto a democracia quanto a própria igreja.
Cristo, diante da possibilidade de acordos convenientes com os poderes de seu tempo, preferiu a cruz. Não desviou da missão. Talvez seja hora de lembrar que fé não é palanque — é compromisso com a verdade.
Institui o Dia Nacional do Evangélico
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2009/lei-12025-3-setembro-2009-591017-publicacaooriginal-116169-pl.html Dia Nacional da Marcha para Jesus
Dia Nacional da Música Gospel,
Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico










Publicar comentário