A cadeira de Imbituba

Entre a memória de Tico e a candidatura de Rosenvaldo Júnior, uma cidade volta a discutir sua representação na Assembleia Legislativa

Imbituba tem uma história particular quando o assunto é representação política na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Há mais de três décadas, um nome nascido no município ocupava uma cadeira no Parlamento estadual. Agora, em 2026, a candidatura do ex-prefeito Rosenvaldo Júnior, pelo PDT, recoloca essa possibilidade no centro do debate político local.

Entre uma história e outra, permanece uma questão que atravessa gerações: o que significa para uma cidade ter um representante seu na Assembleia Legislativa?

O primeiro capítulo dessa história foi escrito por Manoel Vitor Cavalcanti, conhecido como Tico. Nos registros oficiais da Alesc, ele é identificado como o primeiro deputado de Imbituba. Tico havia sido eleito primeiro suplente em 1990 e assumiu uma cadeira em 1992, após Sérgio Grando deixar o Legislativo para assumir a Prefeitura de Florianópolis.

Arquiteto e trabalhador do Porto de Imbituba, Tico levou para a Assembleia parte das pautas que faziam parte da realidade do município e da região. Sua passagem pelo Parlamento também deixou registros formais, entre eles uma proposição que resultou em lei estadual relacionada à participação dos empregados em diretorias e conselhos de empresas públicas e sociedades de economia mista.

A passagem de Tico pela Alesc permanece como uma referência na história política de Imbituba. Desde então, o município não voltou a eleger um representante próprio para o Legislativo estadual.

Uma nova tentativa

Em 2026, o assunto retorna à cena política com Rosenvaldo Júnior.

Ex-prefeito de Imbituba por dois mandatos, entre 2017 e 2024, Rosenvaldo ingressou no PDT e colocou seu nome na disputa por uma cadeira de deputado estadual. A candidatura apresenta como um de seus principais argumentos a necessidade de ampliar a representação de Imbituba e da região no Parlamento catarinense.

A movimentação ocorre em um cenário eleitoral no qual alianças e aproximações também começam a redesenhar antigas fronteiras políticas do município.

Um dos episódios mais simbólicos dessa caminhada envolve justamente um antigo adversário.

Quando os caminhos se encontram

Jaison Cardoso de Souza, ex-prefeito de Imbituba, esteve em lados opostos de Rosenvaldo em uma disputa que marcou a política municipal.

Na eleição de 2012, Jaison foi eleito prefeito. Rosenvaldo estava entre seus adversários. Apesar da disputa, os dois mantiveram, segundo o próprio Jaison, uma relação marcada pelo respeito.

Mais de uma década depois, os antigos adversários aparecem juntos em torno da candidatura de Rosenvaldo à Assembleia Legislativa.

Em declaração durante a campanha, Jaison relembrou a relação construída ao longo dos anos. Disse que, mesmo tendo sido adversário de Rosenvaldo, nunca houve entre os dois uma relação pautada por ofensas e que, durante sua administração, ajudou o então adversário quando teve oportunidade.

Ao justificar o apoio, Jaison colocou a representação de Imbituba acima das diferenças ideológicas e partidárias.

A posição expressa uma leitura política que começa a aparecer em diferentes momentos da campanha: a ideia de que a cidade pode buscar convergências quando estão em discussão interesses considerados comuns.

Rosenvaldo também ressaltou o significado do gesto. Para ele, receber o apoio de alguém que esteve em outro campo político torna o momento especialmente simbólico, justamente pela trajetória de respeito construída entre os dois.

A aproximação, entretanto, não apaga as diferenças políticas que marcaram suas trajetórias. O que muda é o ponto de encontro: neste momento, ambos afirmam reconhecer a importância de Imbituba buscar novamente uma representação direta na Assembleia.

Uma história que volta à pauta

A política eleitoral costuma ser feita de números, partidos, alianças e disputas. Mas, no caso de Imbituba, a candidatura de Rosenvaldo também recupera uma memória que estava distante do cotidiano de boa parte da população.

Tico ocupou uma cadeira na Assembleia quando Imbituba vivia outro momento de sua história. O município cresceu, mudou sua economia, ampliou sua população e passou a enfrentar novos desafios.

A discussão sobre representação, portanto, retorna em um contexto completamente diferente.

Ter um deputado estadual não significa, por si só, garantir conquistas para uma cidade. O mandato depende de articulação política, capacidade de diálogo, trabalho parlamentar e, sobretudo, da defesa de pautas que ultrapassem interesses individuais ou partidários.

Por isso, mais do que uma disputa por uma cadeira, a eleição também coloca em debate o papel que um representante de Imbituba poderia exercer dentro do Legislativo catarinense.

Entre a memória de Tico e a candidatura de Rosenvaldo Júnior, Imbituba reencontra uma discussão que há décadas permanece aberta: a importância de ter um nome da cidade ocupando espaço no Parlamento catarinense.

A eleição de 2026 recoloca essa possibilidade em movimento — e, com ela, o debate sobre o quanto uma representação diretamente ligada à cidade pode significar para seus interesses, suas demandas e seu futuro.

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