Com candidaturas registradas e campanha oficialmente nas ruas, partidos, prefeitos e lideranças intensificam alianças e movimentos que podem definir os caminhos da eleição de 2026
A eleição de 2026 entrou em uma fase diferente em Santa Catarina. Se, nas últimas semanas, o ambiente político era marcado principalmente por conversas, possibilidades e movimentos ainda em construção, agora as articulações começam a aparecer de forma mais concreta. Com as candidaturas registradas, a propaganda eleitoral já no ar e as campanhas ocupando as ruas, partidos e lideranças passam a trabalhar não apenas para apresentar nomes, mas para consolidar apoios, ampliar bases e organizar forças para a disputa.
O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina registrou 692 candidaturas para as eleições deste ano: 408 para deputado estadual, 229 para deputado federal e outras destinadas às disputas majoritárias. O encerramento do prazo de registro, em 15 de agosto, marcou também uma mudança importante na dinâmica eleitoral: aquilo que antes era possibilidade passou, em muitos casos, a ter nome, número, partido e composição definidos.
Mas o registro das candidaturas não encerra as articulações. Pelo contrário. É a partir dele que muitos grupos começam a testar sua capacidade real de mobilização.
A política estadual encontra a política regional
Um dos movimentos mais recentes aconteceu na região da Associação de Municípios da Região de Laguna (AMUREL).
No sábado, 29 de agosto, prefeitos, parlamentares, candidatos e lideranças políticas da região participaram, em Tubarão, de um encontro com o governador e candidato à reeleição Jorginho Mello (PL).
Segundo levantamento divulgado pela Revista Única, 14 dos 18 prefeitos da AMUREL já declararam apoio à candidatura de Jorginho. Entre os participantes estavam prefeitos de municípios como Laguna, Grão-Pará, Sangão, Gravatal, Braço do Norte, Imbituba, Jaguaruna, Treze de Maio, Pescaria Brava, Capivari de Baixo e São Martinho.
O dado merece atenção não apenas pelo número de prefeitos envolvidos, mas pelo significado político da movimentação.
Prefeitos possuem estruturas próprias, relações construídas nos municípios e capacidade de mobilização eleitoral. Quando uma candidatura ao governo estadual consegue reunir uma parcela expressiva dessas lideranças, há uma articulação territorial em curso.
Isso, porém, precisa ser compreendido com cuidado.
Apoio político não significa transferência automática de votos.
O eleitor continua sendo soberano e pode escolher candidatos diferentes daqueles apoiados pelo prefeito, pelo deputado ou pela liderança de sua cidade. A força de uma articulação municipal precisa, portanto, ser medida não apenas pela fotografia de uma reunião, mas pela capacidade de transformar apoio político em presença eleitoral.
É justamente aí que começa a disputa.
Jorginho amplia a rede de apoio
Jorginho Mello chega à campanha pela reeleição com uma estrutura partidária mais ampla do que aquela que possuía quando venceu a eleição de 2022.
Naquele pleito, venceu sem uma coligação ampla. Agora, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, sua candidatura reúne oito legendas, entre elas Republicanos e Novo.
A composição mostra uma característica importante das eleições estaduais brasileiras: as alianças locais nem sempre reproduzem exatamente as alianças nacionais.
Um levantamento do UOL sobre as eleições de 2026 identificou que 100 das 198 candidaturas registradas aos governos estaduais foram lançadas sem coligação. Ao mesmo tempo, partidos que mantêm posições próprias na disputa presidencial formaram alianças diferentes nos estados. O Novo, por exemplo, construiu 13 alianças com o PL em disputas estaduais, embora não exista uma aliança nacional equivalente para a Presidência.
Santa Catarina é parte desse fenômeno.
Aqui, a disputa pelo governo estadual apresenta alianças que precisam ser observadas pelo que representam no próprio Estado, e não apenas pela posição nacional de cada partido.
O outro campo da disputa
O principal adversário de Jorginho na pesquisa Quaest divulgada em agosto é João Rodrigues (PSD).
O levantamento apontou Jorginho com 50% das intenções de voto e João Rodrigues com 17%. A candidatura de Rodrigues reúne MDB e a federação formada por PP e União Brasil. Gelson Merísio (PSB), apoiado pelo PT, aparece com 4%.
Os números são importantes para entender o momento eleitoral, mas não devem ser confundidos com resultado.
A pesquisa foi realizada entre 20 e 23 de agosto, ouviu 804 eleitores e possui margem de erro de três pontos percentuais. O levantamento está registrado no TSE sob o número SC-00517/2026.
Em uma eleição que ainda tem semanas de campanha pela frente, articulações podem alterar o tamanho das estruturas, a presença territorial e a capacidade de comunicação dos grupos.
Senado acrescenta outra camada às negociações
A disputa pelo governo não acontece isoladamente.
Em 2026, o eleitor catarinense escolherá dois senadores, e a corrida pelas duas vagas acrescenta uma nova camada às articulações partidárias.
A pesquisa Quaest mostrou Esperidião Amin (PP) com 19%, Carlos Bolsonaro (PL) com 16%, Carol De Toni (PL) com 12% e Décio Lima (PT) com 9%. Outros candidatos apareceram com percentuais menores.
Mas, novamente, pesquisa não é resultado.
O que interessa para a análise das articulações é entender como as candidaturas ao Senado se relacionam com as chapas ao governo, com as estruturas partidárias e com as lideranças regionais.
São duas vagas.
Isso significa que cada grupo político precisa pensar não apenas em quem apoiar, mas também em como distribuir seus esforços eleitorais.
E o eleitor poderá escolher dois nomes para o Senado.
Esse detalhe muda a estratégia das campanhas e abre espaço para diferentes combinações de voto.
A AMUREL entra no jogo
É nesse ponto que a política estadual começa a conversar diretamente com a realidade regional.
A reunião de Tubarão mostrou que a AMUREL não está fora do tabuleiro eleitoral. Pelo contrário: prefeitos e lideranças da região já estão assumindo posições e construindo seus próprios caminhos dentro da eleição estadual.
Entre os nomes presentes no encontro estava o prefeito de Imbituba, Michell Nunes, ao lado de outros gestores municipais da região.
Para a região, a eleição de 2026 terá consequências que vão muito além da disputa pelos cargos.
Deputados estaduais e federais eleitos representarão territórios. Senadores terão participação nas decisões nacionais que afetam diretamente Santa Catarina. E o governador eleito será responsável por administrar políticas públicas que chegam aos municípios por meio de investimentos, programas, obras e convênios.
Por isso, cada apoio regional pode ser entendido também como uma tentativa de construir influência para os próximos quatro anos.
E onde entram os partidos?
As articulações eleitorais não são feitas apenas em torno de afinidades ideológicas.
Existe uma matemática política.
Partidos precisam eleger deputados. Candidatos precisam de estrutura. Governadores precisam construir maioria. Prefeitos buscam recursos e canais de diálogo com o Estado e a União. Deputados precisam fortalecer suas bases. E as legendas procuram preservar ou ampliar sua presença institucional.
É por isso que uma mesma legenda pode estar próxima de determinado grupo em um Estado e de outro grupo em outra região.
O próprio desenho eleitoral de 2026 mostra esse fenômeno.
As alianças para cargos majoritários são estaduais e temporárias, enquanto as federações partidárias possuem regras próprias de funcionamento. O TSE explica que partidos, federações e coligações são estruturas diferentes e possuem características específicas dentro do processo eleitoral.
Na prática, isso significa que o eleitor precisa olhar além da sigla.
Quem está junto? Para disputar qual cargo? Em qual território? E com qual objetivo eleitoral?
Articulação não é garantia de vitória
Há uma diferença fundamental entre construir uma aliança e vencer uma eleição.
Uma reunião pode demonstrar força.
Uma declaração de apoio pode demonstrar alinhamento.
Uma coligação pode ampliar tempo de propaganda e estrutura.
Mas nenhuma dessas coisas substitui o voto.
É justamente por isso que as próximas semanas serão importantes.
Os grupos que hoje aparecem organizados precisarão transformar alianças políticas em campanha, campanha em presença nos municípios e presença em voto.
E os adversários terão de mostrar que conseguem romper estruturas que, neste momento, parecem consolidadas.
O mapa ainda está em movimento
A eleição catarinense começa a revelar seus contornos, mas o desenho definitivo ainda está longe de ser conhecido.
Há candidaturas consolidadas, alianças formalizadas e apoios declarados. Há também diferenças entre a política nacional e os acordos construídos dentro do Estado.
Na AMUREL, o encontro de Tubarão mostrou uma força regional significativa em torno da candidatura de Jorginho Mello. Ao mesmo tempo, a existência de outros candidatos e diferentes projetos políticos mantém aberta a disputa por prefeitos, vereadores, deputados, lideranças comunitárias e eleitores.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem apoia quem.
É como essas alianças serão capazes de se transformar em força eleitoral.
E essa resposta não será dada pelas reuniões, pelas fotografias ou pelos discursos.
Será dada nas urnas.
JPC | ELEIÇÕES 2026
Articulações não são apenas encontros entre políticos. São movimentos que revelam interesses, estratégias e caminhos que cada grupo pretende seguir.
O papel do jornalismo, nesse processo, é separar o que está confirmado do que ainda está em construção — e permitir que o leitor compreenda o jogo político sem precisar escolher previamente um lado.
Porque, em uma eleição, informação também é poder.







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