Por Benedito Dias
Historicamente, os cristãos como instituição sempre se posicionaram do lado direito da mesa.
A Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, indica o surgimento da divisão “esquerda x direita”. A população de Paris, principalmente os sans-culottes — trabalhadores, artesãos, pobres — tomou a fortaleza que simbolizava o absolutismo. Mas foram os deputados da Assembleia Nacional que criaram os termos.
Dois meses depois da Bastilha, discutiam se o rei Luís XVI teria “veto absoluto” sobre as leis. Na hora de votar, a organização física no salão definiu os nomes: lado direito e lado esquerdo.
Do lado direito sentaram os nobres e clérigos contrários à revolução: a Igreja como instituição. Era o “lado da rainha”. Ali estavam os que defendiam uma monarquia forte, rei absoluto e a manutenção dos privilégios.
Do lado esquerdo se posicionavam aqueles que queriam acabar com os privilégios da aristocracia. O Terceiro Estado — formado pela burguesia abastada, com apoio popular — sentava à esquerda. Os pobres mesmo estavam nas ruas, sem voz direta no salão.
A Igreja como instituição estava majoritariamente à direita com a nobreza, defendendo seus privilégios feudais e isenção de impostos. É verdade que nem todo clérigo era igual: o alto clero, nobre, defendeu o rei; o baixo clero, pobre, muitas vezes se aliou ao povo. Mas a face institucional da Igreja escolheu o poder.
A história tem outros detalhes, mas neste artigo quero apenas lembrar: nós, Igreja, sempre nos posicionamos do lado direito da assembleia.
Não querendo envolver Cristo nesse emaranhado de interesses pessoais, financeiros e privilégios espúrios, mas o seu posicionamento social ficou demonstrado nitidamente em defesa dos desprotegidos pelo Estado.
A visão de Cristo não era político-partidária, mas era de ajudar aos que precisavam. Ele fez isso curando os doentes e matando a fome de quem não tinha pão.
A Igreja primitiva, por Ele formada, também pregou um evangelho de inclusão e de cuidado para com os necessitados.
Havia, em Atos dos Apóstolos, recursos oriundos de bens dos mais ricos à disposição dos necessitados – “não havia necessitado algum entre eles” e “perseveravam… partindo o pão de casa em casa” Atos 4:34; 2:42,46.
Era mais que um programa “Bolsa Família”: era koinonia.
Neste contexto, não seria coerente à igreja evangélica, católica, aos cristãos de modo geral, optarem por projetos e candidatos cujo programa social demonstre esse cuidado para com os mais pobres?
Em quem votaram os evangélicos na eleição de 2022?
A permanência da Igreja do lado direito da mesa é socialmente contraditória.
A Igreja não deve ter partido, nem defender ideologias políticas por conveniência ou interesses econômicos, mas deve defender a própria mensagem do Evangelho, que demonstra coerência com a justiça social.
Não sei se por ter sido efetivamente afetada pelo comportamento violento, antidemocrático e escandaloso da direita brasileira, ou se por algum nível de reflexão bíblica, as pesquisas vêm demonstrando que o segmento evangélico está mudando.
Não necessariamente para a esquerda, mas, de repente, para projetos que tenham olhares mais coerentes com os ensinamentos de Jesus.
O risco de 1789 é o mesmo de hoje: quando a Igreja esquece a vocação — o chamado, Efésios 4:1 — e troca a humildade pela cadeira ao lado do poder, ela perde o ministério.
Em 1790, virou funcionária do Estado.
A pergunta não é “direita ou esquerda?”. É: “Ainda somos um só corpo” Efésios 4:4 ou viramos bancada?
Se o critério for Atos 2 e não Ato Político, o voto do cristão incomoda todo lado, porque o Reino de Deus não cabe na mesa deles, ele vai além das nossas vontades.









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