Trump quer Maracaibo. A Venezuela é apenas um detalhe

A euforia de setores da direita brasileira que celebram a queda de Maduro é, no mínimo, contraditória. Quando o ministro Alexandre de Moraes determina busca e apreensão contra os acusados de tentativa de golpe em 8 de janeiro, é tachado de tirano. Mas quando Trump, do alto do império, invade um país soberano, viola o direito internacional, algema um chefe de Estado e o submete à lei americana, vira herói.

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Na internet, a desinformação geopolítica corre solta. Muitos dos mais exaltados mal sabem onde fica a Venezuela. Se perguntados, talvez respondam: “A Venezuela fica na Venezuela”.

Maduro, assim como Bolsonaro caiu de ignorante, Maduro caiu de maduro. O poder embriaga: cega, ensurdece, emburrece — mas quase nunca empobrece. Um líder formado na cartilha de Fidel jamais deveria acreditar que poderia enfrentar a máquina de guerra americana. Trump, no Mar do Caribe, pipocando embarcações; Maduro, de boa, nas Caracas da vida. Ninguém ama a guerra de paixão mais do que os Estados Unidos. Conflito armado, para eles, é fonte de riqueza. Sempre que a fumaça sobe, aparecem oferecendo “oxigênio” a preço de ouro. Foi assim na Segunda Guerra Mundial.

Imagine um voo a dez mil metros de altura. Um passageiro passa mal, entra em estado grave e não há alternativa de pouso. Surge um médico a bordo, disposto a socorrer — mas impõe seu preço, dez vezes acima do normal. Não é negociação: é imposição. Ou aceita, ou morre. No Direito Penal, isso se chama estado de necessidade, situação em que a vítima, coagida pela urgência, se submete a condições abusivas para sobreviver.

Foi exatamente assim que Washington operou. Enquanto cidades ainda estavam em ruínas, economias colapsadas e milhões de mortos, os EUA já organizavam o pós-guerra. O paciente sangrava, e o “pronto-socorro” financeiro estava pronto — com cláusulas duras, juros, alinhamento político e dependência econômica. Era pegar ou largar.

A guerra destrói; o pós-guerra reorganiza o poder. Com a Europa exausta, o Japão derrotado e os impérios tradicionais falidos, os Estados Unidos surgiram como o único médico disponível no avião: o Plano Marshall. Ele não nasceu depois do conflito; foi gestado enquanto o mundo ainda ardia. A assistência vinha acompanhada de controle, disciplina econômica e liderança geopolítica. Reconstruir significava também comandar.

Países como Alemanha, França, Itália, Japão, Bélgica, Holanda e Grécia contraíram empréstimos vultosos. Em troca da reconstrução, aceitaram importar produtos americanos por décadas.

Ninguém gosta tanto de guerras quanto os Estados Unidos. Não importa se republicanos ou democratas — ora um, ora outro —, a linha imperial permanece a mesma. Enquanto o Brasil já teve sete Constituições, os EUA mantêm a sua desde 1787.

Não seria surpresa ver o país seguir o mesmo roteiro aplicado ao Irã, ao Iraque e a outros tantos, sempre sob o manto da “verdade conveniente”. A queda de Maduro não se explica apenas pelo regime, mas pelas sanções que empurraram a população à miséria. Fome, hiperinflação, colapso dos serviços públicos e êxodo em massa corroeram o governo por dentro.

A narrativa de que Chávez nacionalizou as petroleiras americanas é falsa. O social-democrata Carlos Andrés Pérez foi o responsável por isso. Em seu segundo mandato, o Estado inchado, a pouca produção privada e a dependência extrema do petróleo não suportaram o peso da máquina. Bastou o preço do barril cair para o déficit público explodir.

Chávez prometeu correções, fez ajustes e o país viveu um breve período de prosperidade, mas persistiu no erro de Andrés — sem diversificação econômica, a Venezuela se perdeu. Maduro herdou um modelo falido e não quis corrigi-lo. O modelo chinês — combinação de Estado forte, tecnologia e mercado agressivo — poderia ter sido observado. Resultado: colapso econômico, repressão política e perda total de autoridade.

Trump, por sua vez, é celebrado por violar soberanias e direitos internacionais. Extremistas o tratam como enviado divino. Ignoram que o que se consolida não é o messianismo, mas a velha e brutal lógica imperial. Rússia, China e Estados Unidos disputam o controle do mundo sem disfarces. Esses constroem o palco do discurso da unidade universal — terreno fértil para salvadores políticos, líderes autoritários e, para quem crê, a rampa da ascensão do Anticristo.

Mas afinal, o que Trump quer?

Trump quer Maracaibo. A Venezuela é só um detalhe.

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