Tem coisas que a gente não consegue colocar dentro de uma sacola.
Um doce, sim. Um refrigerante, também. Mas e aquele abraço que chega quando uma mãe já não sabe mais para quem contar o que está sentindo? E aquela lágrima que finalmente encontra um lugar onde pode cair? E o instante em que alguém olha para você e diz, sem precisar dizer: eu estou vendo você.
É disso que também é feita a Carreata de Cosme e Damião.
No próximo domingo, 27 de setembro, o Luz dos Orixás volta a colocar a solidariedade em movimento pelas ruas de Imbituba. A partir das 14h, a carreata seguirá pelos bairros Campo da Aviação, Araçá, Nova Brasília e Campestre, levando doces e refrigerantes para as crianças.
Mas quem conhece a Vany, mãe de santo responsável pela ação, sabe que o que ela leva é maior do que aquilo que cabe nas mãos.
Ela leva presença.
Leva abraço.
Leva escuta.
Leva a possibilidade de, por alguns minutos, alguém que está acostumado a enfrentar tudo sozinho perceber que não está invisível.
“Minha motivação sempre vai ser o próximo”, diz Vany.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais bonita dessa história.
Porque é muito fácil olhar para a própria vida e seguir. Acordar, trabalhar, colocar comida dentro de casa, pagar as contas, cuidar dos nossos. A rotina vai criando uma espécie de cabresto — e, sem perceber, a gente deixa de enxergar quem está caminhando ao nosso lado.
Mas Vany olha.
E quando olha, encontra histórias.
Encontra crianças esperando pelo doce. Encontra mães que chegam precisando de muito mais do que aquilo que a carreata consegue carregar. Encontra mulheres que muitas vezes sustentam sozinhas suas casas, seus filhos, suas dores e ainda precisam suportar o julgamento de quem não conhece suas batalhas.
E então acontece o encontro.
Um abraço.
Uma conversa.
Uma lágrima.
Um desabafo.
“É aquele abraço de: eu posso contar com alguém, alguém está me enxergando e alguém está me motivando.”
Talvez a palavra caridade tenha sido tão repetida que, às vezes, a gente esqueça o tamanho dela.
Caridade não é apenas dar alguma coisa a quem precisa.
É reconhecer no outro uma humanidade que é igual à nossa.
É dividir quando poderia guardar.
É parar quando poderia passar direto.
É perceber que, enquanto estamos preocupados com os problemas da nossa própria casa, existe uma mãe tentando descobrir como vai colocar comida na mesa. Existe uma criança esperando por um gesto de carinho. Existe alguém precisando apenas de um lugar para descansar a tristeza por alguns minutos.
E é justamente nesse espaço que a ação do Luz dos Orixás encontra sua força.
Vany também fala das dificuldades que acompanham esse caminho. Fala do racismo, da intolerância religiosa, dos obstáculos que um terreiro ainda enfrenta para simplesmente existir e servir à sua comunidade.
Mas não fala a partir da revolta.
Fala a partir daquilo que escolheu fazer com tudo isso: continuar cuidando.
Mostrar que dentro de um terreiro também existe mão estendida.
Existe acolhimento.
Existe gente cuidando de gente.
Existe caridade.
Existe comunidade.
No fim, talvez seja isso que uma carreata de Cosme e Damião carregue pelas ruas.
Não apenas doces.
Carregue a lembrança de que ninguém deveria atravessar a vida sem ser visto.
Que nenhuma mãe deveria sentir que precisa suportar tudo sozinha.
Que um abraço pode não resolver uma dificuldade, mas pode devolver força para continuar.
E que uma criança talvez se lembre do doce por alguns dias — mas pode guardar por muito mais tempo a lembrança de ter sido recebida com alegria.
AS IMAGENS SÃO DO ANO PASSADO
O vídeo que acompanha esta publicação registra momentos da Carreata de Cosme e Damião realizada no ano passado. São imagens de uma história que já foi vivida e que agora prepara uma nova caminhada.
No domingo, 27 de setembro, a carreata volta às ruas de Imbituba.
Às 14h, partindo do Luz dos Orixás, seguirá por Campo da Aviação, Araçá, Nova Brasília e Campestre.
E talvez a melhor maneira de entender o que vai acontecer seja não olhar apenas para o que será entregue.
Olhar para o que será compartilhado.
Porque, no fundo, caridade é isso: quando aquilo que existe dentro de nós encontra alguém que estava precisando exatamente disso.
E Vany colocou a alma dela nessa caminhada.
Agora, ela coloca essa alma nas ruas.
E as ruas, certamente, saberão recebê-la.
© 2026 Gladis Helena Santiago / Jornal Popular Catarinense – JPC
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Autoria original: Gladis Helena Santiago
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