Sete de Setembro: o mito derreteu na avenida

A Paulista ficou larga demais para o bolsonarismo

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Benedito Dias

As manifestações do 7 de Setembro, orquestradas pela direita bolsonarista sob a batuta de Silas Malafaia, soaram como ensaio desafinado de uma orquestra que já não reúne público. Em São Paulo e no Rio, dois dos principais “points” da militância, o que se viu foi esvaziamento — não apenas de ruas, mas de um projeto político que insiste em posar de mito, embora nitidamente se derreta no asfalto quente. O som que se ouve é de uma música de nota só: o lenga-lenga da avenida que ninguém aguenta mais. Nem mesmo os direitistas conscientes, que torcem o nariz ao ver a bandeira americana ocupando o espaço do pavilhão nacional no dia da Independência do Brasil. Música de um único acorde pode até fazer barulho, mas não sustenta um show.
Esse esvaziamento revela duas coisas. A primeira é óbvia: o bolsonarismo já não enche avenida como antes, está derretendo em público, como sorvete esquecido no sol. A segunda é ainda mais cruel: se tivesse havido explosão popular, especialmente na Avenida Paulista, o resultado poderia ser pior para Bolsonaro. Isso porque evidenciaria a adesão espontânea ao governador Tarcísio, dispensando a bênção do ex-presidente. Ou seja, em qualquer cenário, Bolsonaro sai menor.
Tarcísio afina seu discurso com a ala conservadora do bolsonarismo, mas tropeça quando afirma não acreditar na Justiça. Não parece sensato que um candidato do mercado desmereça justamente a instituição que garante a segurança jurídica essencial ao mundo dos negócios. Afinal, ninguém quer reviver outro 8 de Janeiro patrocinado por quem despreza o Judiciário.
Tarcísio prega a anistia a Bolsonaro, mas no âmago da alma — lá no recôndito do coração — o que deseja mesmo é ver o ex-presidente na cadeia. Só assim herdaria, de fato, seu legado político.
Enquanto isso, o resto do clã também se desidrata. Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos, amarga o constrangimento do autoexílio. Pisou na casca da banana, escorregou feio, rolou até os pés de Trump e não consegue se levantar.
A ideia de articular contra o ministro Alexandre de Moraes e, em troca de um tarifaço político, arrancar a anistia para o pai não rendeu frutos. Ao contrário: o risco é perder o mandato de deputado, enterrar o sonho de ser senador — antes visto como vitória certa — e, de quebra, ser preso ao regressar ao Brasil.
Como se não bastassem as ideias que brotam da massa cefálica da sola dos pés, o Zero Três, ao se manter submisso aos pés de Trump, arrisca perder até a própria esposa. O pai, todos sabem, ele já despachou para aquele lugar…
O saldo deste 7 de Setembro é, portanto, o retrato de uma família em processo de derretimento. Bolsonaro se esvai pouco a pouco, e a condenação definitiva promete ser o ponto final dessa epopeia — agora tingida de vermelho americano sobre as cores nacionais, numa demonstração de trairagem, perfídia, desnacionalização e submissão a poderes estrangeiros travestida de patriotismo.
A defesa da vassalagem a Trump era o raio X que faltava para expor o verdadeiro desejo da direita bolsonarista nas manifestações antidemocráticas que se instalaram nas portas dos quartéis após as eleições de 2022.
Quem ainda botava algum peso, de forma ruidosa e peculiar, na defesa do mito era Malafaia, mas até ele acabou engolido pela PF com aquele áudio que arrepiou até os cabelos da palma da mão dos evangélicos. Agora, nem sua gritaria “celestial” consegue encher a avenida. O mito virou miragem.

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