Pastor na política é casa edificada sobre a areia.

Por Benedito Dias      

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Sóstenes Cavalcante — deputado, pastor e eleito pelas mãos habilidosas de Silas Malafaia — mal chegou à Câmara e logo percebeu que ali havia muito mais oportunidades do que discursos. Crescer no baixo clero é quase impossível, dizem. Mas Sóstenes descobriu cedo que, no Parlamento, talento não é requisito; performance é.

Falante como Zé da Cobra – figura típica daqueles propagandistas de remédio de calçada que montam palco, criam suspense e prometem milagres —, Sóstenes domina a arte da narrativa. Zé da Cobra garante ter uma cobra que dança carimbó na ponta do rabo. Mostra a bolsa fechada, cutuca com uma bengala e explica: “Ela tá cansada, fez show a noite inteira”. Em seguida, abre outra bolsa e vende pomadas que curam tudo: coceira, dor na coluna, gonorreia, próstata, insônia, corrimento, frigidez, demência e impotência sexual. Vende tudo. Vai embora e não mostra a cobra.

Na política, o método é parecido.

Sóstenes cresceu no ambiente do lenga-lenga ideológico: Brasil virando Venezuela, Lula fechando igrejas, comunismo às portas, China comprando tudo, Bolsonaro ungido, direita bíblica contra a esquerda diabólica. Esse discurso — repetido à exaustão — não exige provas, apenas fé. E fé, quando mal direcionada, vira ferramenta.

O resultado foi uma ascensão meteórica: articulou, decidiu, aprovou, garantiu e empossou Eduardo Bolsonaro como líder da Câmara, mesmo ele não morando mais no Brasil. Defendeu a atuação parlamentar fantasma de Carla Zambelli — corpo na Itália, alma no Brasil —; defendeu também a anistia, mesmo diante de crimes evidentes, e até o impeachment do “Xandão”. Sempre pronto, por ordem do pastor-mor, e já falando grosso como tal.

A Bíblia, curiosamente, oferece um alerta pouco consultado pelos cristãos militantes da direita. Provérbios 13:6 diz:

“A retidão protege o homem íntegro,

mas a impiedade derruba o pecador.”

Texto pouco visitado. Talvez pelo número. Cristãos supersticiosos evitam o 13 — preferem dizer 12+1 ou 14-1. Nunca consegui decifrar essa estupidez, até porque o ministério de Jesus foi formado por 13 pessoas: os doze discípulos e Ele. Ignorar o 13 é ignorar o próprio Cristo.

Essa mesma falta de atenção parece ter atingido Sóstenes quando esqueceu no armário do apartamento funcional em Brasília R$ 470 mil, quase meio milhão, embalado e lacrado como presente de aniversário. Questionado, explicou que era fruto da venda de um imóvel em Minas Gerais.

Tudo bem. Poderia ser.

Mas até Alexandre Garcia, defensor de praticamente tudo desde Figueiredo, achou estranha essa nova tecnologia imobiliária chamada “Pix em saco”.

O mais impressionante nessa história não é o fato de Sóstenes ser pastor — a moral pastoral, convenhamos, já sofreu abalos suficientes depois que os evangélicos foram capturados pela política partidária. O que realmente espanta é ele ser advogado. Um advogado não pode cometer um erro desses. Não pode fingir ignorar o básico.

Vamos raciocinar:

Se o imóvel foi vendido, por que não Pix ou TED?

Por que correr o risco de ser pego com saco de dinheiro no banco do carro?

Se não há justificativa plausível, a origem é ilícita.

Se é ilícita, é suspeita.

Se é suspeita, é lavagem.

Se é lavagem, é organização criminosa.

Simples assim. Sem metáfora.

Mas tudo bem, digamos que o dinheiro seja lícito. Ainda assim, dinheiro em saco não é moral. Não é ético. Não é normal. Não é aceitável para quem se apresenta como pastor, deputado e advogado.

Casa edificada sobre a areia pode até parecer bonita por um tempo. Mas basta uma chuva — ou uma busca e apreensão — para mostrar que nunca houve fundamento.

Pronto, falei.

E, se ofendi, peço desculpas — não pelo que disse, mas por não ter passado a pomada do Zé da Cobra.

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