Por Benedito Dias
“Assim diz o Senhor, o meu Deus: ‘Pastoreie o rebanho destinado à matança, porque os seus compradores o matam e ninguém os castiga. Aqueles que o vendem dizem: ‘Bendito seja Deus, estou rico!’ Nem os próprios pastores poupam o rebanho.”
— Livro de Zacarias 11:4–5
Quem pregaria sobre Zacarias 11?
Quem conseguiria escrever sobre esse capítulo sem sentir a mão tremer? Quem subiria ao púlpito para esboçar esse texto sem balançar as pernas? Quem leria em voz alta — “os que as compram as matam e não se têm por culpados” — sem morder a língua?
Converti-me aos 12 anos. Hoje, aos 67, já ouvi incontáveis mensagens sobre dízimos, ofertas e prosperidade. Já escutei muitas vezes que “é melhor dar do que receber”. O texto de Livro de Malaquias 3:10 — “trazei todos os dízimos à casa do tesouro” — aparece repetidas vezes como uma espécie de senha espiritual de fidelidade. Já participei de campanhas de fé, desafios financeiros e promessas de cem vezes mais.
Mas nunca ouvi uma série sobre Zacarias 11.
Nunca vi campanha baseada nele. Nunca vi envelope temático com esse capítulo impresso.
Curioso, não?
Porque Zacarias não fala de ateus. Fala de pastores.
Não denuncia perseguição externa. Denuncia exploração interna.
Não expõe lobos selvagens. Expõe negociantes de ovelhas.
Zacarias menciona trinta moedas de prata — o preço atribuído a um pastor rejeitado. Séculos depois, o eco reaparece no Evangelho de Mateus, quando Judas Iscariotes vende Jesus Cristo pelo mesmo valor. O tempo muda, mas o mecanismo permanece: sempre há vendedores e compradores.
A pergunta que fica — e que talvez explique o silêncio — é simples: estamos alimentando o rebanho ou administrando um mercado?
É ano eleitoral. Grandes ministérios entram nas grandes agendas. Políticos se aproximam do segmento evangélico — afinal, são cerca de quarenta milhões de eleitores. Fazem-se de crentes, simulam orações, há até quem desça às águas do batismo sem jamais se render a Cristo, cruzam portas de templos e são conduzidos aos primeiros lugares, apresentados ao púlpito com honra cerimonial.
Quando chegam, muitas vezes tudo para: leitura bíblica, oração, louvor, pregação.
Eles entram sob reverência do rebanho.
Fotos são tiradas. Sorrisos são calculados. Reuniões discretas se alongam. E, sobre a mesa — ainda que invisíveis — estão as ovelhas, expostas como produto negociável.
Potencial de voto.
Potencial de influência.
Potencial de transferência de capital político.
O cenário descrito por Zacarias é desconfortável: “os que as compram as matam e não se têm por culpados”.
A mercantilização do rebanho é vergonhosa. Muitas vezes o convencimento acontece pela via da desinformação dirigida aos menos informados. Já vi vídeos editados com conteúdo enganoso sendo exibidos nas mídias de igrejas, em pleno culto a Deus — algo que surpreenderia até o diabo.
Participação política é legítima. Cidadania é dever. Cristãos votam, opinam e devem fazê-lo com consciência.
O problema começa quando o altar vira vitrine. Quando o púlpito vira plataforma. Quando a fé vira moeda.
Não é o político que mais preocupa.
É o pastor que apresenta o rebanho como ativo negociável.
Zacarias mostra os cajados da graça e da união se quebrando. Lá, era Deus retirando sua bênção. Aqui, é a substituição do ministério pelo mercado.
E mercado não pastoreia.
Mercado calcula.
Mercado usa planilhas, números e moedas — não cajados.
No final do capítulo, Zacarias fala de um “pastor inútil” que abandona as ovelhas. Não é um lobo declarado. É alguém que ocupa o lugar certo com o espírito errado.
Porque, no fim das contas, cada líder responderá não diante de uma comissão parlamentar de inquérito, mas diante do Pastor que chama o rebanho de “minhas ovelhas”.
E naquele dia não haverá mercado.
Nem planilhas.
Nem moedas.
O Pastor verdadeiro pedirá contas do rebanho, e não haverá trinta moedas — nem dinheiro algum — capaz de comprar a liberdade de quem negociou as ovelhas.










Publicar comentário