Por Benedito Dias
Não sei se por vaidade, complemento curricular, experiência ou vontade de fazer alguma coisa diferente, Augusto Cury apareceu de repente. Para muitos, uma aventura. Para ele, não sei. Para o partido Avante, talvez o candidato que faltava para colocar uma nova voz no debate presidencial.
Aos 68 anos, o professor, médico psiquiatra e escritor Augusto Cury estreia na política e, para surpresa de muita gente — talvez até dele próprio — já aparece em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Quem diria!
Acho que nem ele mesmo imaginava essa proeza. Depois da sabatina da Globo, conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos, Cury foi alvo de críticas e chegou a ser apontado por comentaristas como um dos que tiveram pior desempenho. Mas, curiosamente, foi justamente depois daquela entrevista que ganhou espaço na disputa pela Presidência e se transformou no candidato mais bem posicionado entre aqueles que tentam romper a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Ronaldo Caiado ficou para trás. Tenta subir a rampa, mas escorrega: é um passo para frente e dois para trás.
Zema já demonstrou ser insensível ao considerar morador de rua ‘lixo humano’. Num país que há décadas convive com pobreza, exclusão e gente vivendo nas ruas, tratar o ser humano como lixo não é apenas uma frase infeliz: é uma declaração que revela uma maneira de enxergar o outro.
Renan Santos é precipitado e demonstra desequilíbrio. Tal qual Pablo Marçal, pode levar uma cadeirada a qualquer hora.
Na preferência do eleitor, Cury já desponta com 8%, 10% e até 11% em algumas pesquisas. De onde vem essa votação? Quem está perdendo votos para o estreante?
As últimas pesquisas mostram uma movimentação importante: Cury cresceu, Zema caiu e uma parcela do eleitorado que ainda estava indecisa parece ter encontrado um candidato de perfil diferente.
Lula e Flávio, apesar das oscilações, continuam ocupando as duas primeiras posições. Cury, porém, começa a mexer no tabuleiro. Na pesquisa BTG/Nexus, chegou a 11%; no Datafolha mais recente, apareceu com 8%.
Se conseguir esvaziar ainda mais o ninho dos indecisos e avançar sobre os votos daqueles que não se identificam com a polarização, Cury pode chegar a algo próximo de 15%. E isso significaria uma montanha de votos — algo em torno de 20 milhões de votos.
Lá vem o Cury!
Para onde vai Augusto Cury a partir do dia 4 de outubro?
São votos da decisão. Cury vale ouro! Suas ideias podem até interessar, mas, neste momento, seus votos são os passos mais valiosos para a rampa do Planalto.
Fico imaginando Cury sujando sua trajetória, rasgando seu diploma de médico, negando a ciência que sempre defendeu e aderindo a discursos que contrariem aquilo que construiu ao longo da vida.
Imagine, por exemplo, Cury apoiando Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Aí reside o dilema moral: se mantiver o discurso técnico-científico, ficará difícil justificar o apoio a quem foi criticado por sua postura diante da pandemia e das vacinas.
Como, então, apoiar Flávio?
O dilema está armado: apoiar Flávio e ficar de bem com o eleitor que o fez crescer ou preservar a coerência com a biografia de médico construída ao longo da vida, que lhe rendeu sucesso, notoriedade, dignidade e dinheiro?
Não se posicionar no segundo turno também pode ser uma fraqueza política. João Amoêdo fez isso em 2018 e desapareceu do mapa político nacional.
A pressão de Lula e Flávio em outubro será gigantesca. Cury terá de escolher entre a coerência de sua trajetória e o cálculo político.
Fico imaginando Augusto Cury apoiando Flávio e, no dia seguinte, alguém resgatando os vídeos do médico Cury falando sobre a importância da vacina, colocando sua posição diante do discurso de Jair Bolsonaro durante a pandemia.
Esse pode ser o preço de crescer rapidamente no colo de eleitor alheio, mas Cury, pelo menos por enquanto, não parece estar pensando assim. Empolgado com a ascensão nas pesquisas, ele já declarou que escolheu seu adversário no segundo turno: Lula da Silva. Disse também que pretende acabar com a reeleição e afirmou que o cargo de presidente não pertence à família Bolsonaro nem à família Lula da Silva, mas ao contribuinte.
Lá vem o Cury!
Avante, Cury!
Pra cima, Cury, do trio empacado!
O eleitor quer paz e moderação. Talvez seja por isso que tenha rejeitado Bolsonaro em 2022.
O eleitor quer mansidão e humildade. Talvez seja por isso que rejeite Caiado, que muitas vezes parece ter a língua maior que a boca.
O eleitor quer sensibilidade. Talvez seja por isso que Zema enfrente dificuldade para conquistar o eleitorado nacional.
O eleitor quer serenidade. Talvez seja por isso que Renan Santos não decole com seu discurso agressivo.
E é exatamente aí que Cury encontra seu espaço. Não que o tenha criado, mas apenas chegado primeiro para ocupá-lo
E aqui entra Aristóteles: para o filósofo grego, a virtude não está nos extremos, mas na busca do equilíbrio. Na política brasileira de 2026, Cury parece ter encontrado justamente esse espaço — o meio que estava vazio entre dois polos que já cansaram boa parte do eleitor.
Lá vem Cury.
Agora é esperar para ver se ele terá fôlego para subir a rampa ou se, como tantos outros, vai escorregar antes de chegar ao topo.









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