Ilha mais distante do litoral brasileiro volta a ficar verde após erradicação de cabras invasoras

Localizada a 1.160 quilômetros da costa do Espírito Santo, a Ilha da Trindade — o ponto habitado mais remoto do Brasil — vive um processo impressionante de recuperação ambiental. Após quase três décadas da eliminação de cabras que devastaram sua flora, a vegetação nativa voltou a se expandir de forma espontânea, sem qualquer intervenção humana direta.

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Introduzidos no início do século XVIII, os animais provocaram um colapso ecológico que reduziu a cobertura vegetal da ilha a menos de 5% de sua área original. Hoje, estudos indicam que a natureza vem revertendo esse cenário: a área verde nativa cresceu mais de 1.400%, enquanto a vegetação rasteira se espalhou por centenas de hectares.

Monitoramento revela força da regeneração natural

Desde 2014, pesquisadores acompanham a dinâmica de regeneração da ilha, que chegou a ser descrita como uma “paisagem desértica”, coberta quase exclusivamente por rochas. O monitoramento reúne imagens históricas, dados de expedições anteriores e análises por sensoriamento remoto, permitindo reconstruir a transformação ambiental ao longo dos últimos 30 anos.

Em 2023, a pesquisadora Márcia Gonçalves, do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana do Museu Nacional (UFRJ), passou a integrar o projeto. Segundo ela, o acompanhamento detalhado revelou tanto perdas irreversíveis quanto avanços surpreendentes.

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Algumas espécies endêmicas, exclusivas da Ilha da Trindade, chegaram a ser completamente extintas durante o período de degradação. Outras, porém, resistiram em áreas de difícil acesso — como regiões mais elevadas — e hoje apresentam sinais claros de recuperação populacional.

Espécies ameaçadas voltam a prosperar

De acordo com os pesquisadores, plantas que chegaram a ter menos de dez indivíduos registrados conseguiram se recuperar, alcançando populações próximas de cem exemplares. Atualmente, estima-se que cerca de 15% da área anteriormente degradada já esteja novamente coberta por vegetação.

Os dados mostram que, comparado ao período de maior impacto ambiental, houve um aumento de aproximadamente 65 hectares de floresta, além de uma expansão expressiva da vegetação de menor porte.

Um laboratório natural de resiliência ecológica

Para os cientistas, o caso da Ilha da Trindade é um exemplo raro da capacidade de regeneração de ecossistemas insulares — geralmente considerados extremamente frágeis — quando espécies invasoras são removidas.

“O que vemos aqui é a prova de que ambientes naturais, mesmo após danos severos, podem se recuperar se a pressão externa for eliminada. Isso reforça a necessidade de atenção rigorosa ao impacto de espécies exóticas”, destacam os pesquisadores.

O estudo, publicado em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science, seguirá em andamento, com projeções sobre a cobertura vegetal da ilha até o ano de 2125.

Como as cabras chegaram à ilha

As cabras foram levadas à Trindade por volta de 1700, durante uma expedição liderada pelo astrônomo Edmond Halley, o mesmo que dá nome ao famoso cometa. A intenção era garantir alimento para possíveis náufragos, algo que nunca se concretizou.

Com o passar dos séculos, os animais se multiplicaram, consumindo praticamente toda a vegetação disponível e comprometendo inclusive as fontes de água doce da ilha. Após décadas de tentativas, a erradicação completa só foi concluída em 2005, com apoio da Marinha do Brasil.

Desde então, a paisagem vem mudando de forma constante — incluindo o reaparecimento de cursos d’água e cachoeiras que não eram visíveis há séculos.

Área de Proteção Ambiental, a Ilha da Trindade integra o arquipélago de Trindade e Martin Vaz, uma região de alta biodiversidade no Atlântico Sul, com espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta.

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