A decisão do governo de Santa Catarina de encerrar o fornecimento de alimentação nos quartéis do Corpo de Bombeiros expôs, de forma escancarada, uma desigualdade que não pode ser tratada como mero ajuste administrativo. Por decreto assinado pelo governador Jorginho Mello, o Estado substituiu a comida preparada nos quartéis por uma ajuda de custo destinada exclusivamente aos bombeiros militares, deixando os bombeiros comunitários completamente desassistidos.
Na prática, o governo retirou um direito básico — alimentação durante o serviço — e transferiu o custo para quem não tem salário, atua em plantões de até 24 horas e recebe uma ajuda de custo que já era limitada. Enquanto militares passarão a receber até R$ 90 por plantão de 24 horas, os comunitários terão de pagar do próprio bolso para comer durante o serviço.
Trata-se de uma escolha política. E uma escolha que penaliza justamente quem sustenta parte essencial da operação.
Voluntários no nome, indispensáveis na prática
Desde 2019, bombeiros comunitários recebem até R$ 250 por plantão de 24 horas, valor destinado a cobrir despesas como transporte e alimentação. Com o corte da comida nos quartéis, essa quantia passa a ser consumida por necessidades básicas, esvaziando qualquer caráter de compensação mínima pelo serviço prestado.
Embora classificados como voluntários, muitos desses agentes mantêm escalas regulares, atuam continuamente e exercem funções críticas no atendimento pré-hospitalar, combate a incêndios e resgates. Sem eles, o sistema simplesmente não se sustenta.
Militares trabalham em escala de 24 horas por 72 de folga, somando cerca de oito plantões mensais. Já os comunitários permanecem na linha de frente sem a segurança mínima de condições dignas de trabalho.
Modernização para uns, abandono para outros
O argumento oficial aponta para “modernização” e redução de demandas administrativas. Mas a pergunta que fica é direta: modernizar retirando comida de quem salva vidas?
No Corpo de Bombeiros de Brusque, por exemplo, havia estrutura, cozinheiros e logística já estabelecida. O custo não desapareceu — ele apenas foi transferido para os mais frágeis da cadeia.
A exclusão dos comunitários não é um detalhe técnico. É uma decisão que revela prioridades.
Reação política e cobrança pública
A situação chegou à Câmara de Vereadores de Brusque. O vereador Rogério dos Santos (Republicanos) apresentou uma moção de apelo ao governador, aprovada por unanimidade.
“O trabalho dos bombeiros comunitários é indispensável. Com essa mudança, a ajuda de custo se torna insuficiente até para alimentação e transporte, comprometendo a continuidade do serviço”, afirmou.
Outros vereadores também reconheceram a injustiça da medida e cobraram sensibilidade do Executivo estadual.
Não é gestão. É descaso.
Quando o Estado escolhe economizar retirando comida de quartéis, algo está profundamente errado. Não se trata de planilha, mas de valorização humana, de respeito e de coerência com o discurso de segurança pública.
Quem corre para o fogo, para o resgate, para o socorro, não pode ser tratado como item descartável de orçamento.
O Jornal Popular Catarinense se posiciona de forma clara:
📌 defende os bombeiros comunitários,
📌 repudia qualquer política que retire condições mínimas de dignidade,
📌 e apoia a revisão imediata dessa decisão, para que nenhum agente que salva vidas precise pagar para trabalhar.
Segurança pública se faz com estrutura, respeito e justiça — não com cortes seletivos.









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