O Sete de Setembro de 2020 foi assustador. Uma multidão, na Praça dos Três Poderes, aguardava — com expectativa contida — uma ordem do então presidente para invadir o Supremo Tribunal Federal. Não deu certo. Bolsonaro acreditava que as Forças Armadas se sensibilizariam com a pressão das ruas e dariam apoio à investida. A intenção aparente era um golpe branco: sem armas, utilizando uma massa de manobra que serviria para forçar o emprego de força militar e, assim, promover a ruptura do Estado Democrático de Direito. Não deu certo.
O Oito de Janeiro tentou repetir a cena. Após uma derrota eleitoral inesperada, parte da direita, acampada em frente a quartéis, foi orientada a depredar as sedes dos Três Poderes. Mais uma vez, a intenção era provocar o emprego da força militar para, em nome do “restabelecimento da ordem”, dar o golpe. Não deu certo. Já havia um presidente legitimamente eleito, um Judiciário atuante — e Xandão, que já vinha cuidando de processos envolvendo ameaças à democracia.
O perigo da ignorância no poder ameaça a liberdade.
Platão, em A República, descreve que, quando os ignorantes chegam ao poder, o governo passa a ser movido por ilusões, paixões e vaidades, e não pela razão. Para o filósofo, o governante ideal deve ser instruído, virtuoso e orientado pelo conhecimento do bem; sem preparo, o poder cai nas mãos de demagogos que exploram a ignorância popular.
Sócrates também via a ignorância como o maior obstáculo à boa liderança. Para ele, o pior tipo de ignorância é a “ignorância da própria ignorância” — quando o indivíduo pensa saber, mas, na verdade, nada sabe.
“Só sei que nada sei.”
Maquiavel, por sua vez, descreveu o comportamento político de sua época. Os governantes não primavam pela moralidade, mas se preocupavam em ser astutos e inteligentes para lidar com as complexidades do poder. Temiam tanto os “bons” ingênuos quanto os “maus” incompetentes. Sem essa compreensão, perderiam o trono.
Vivemos, no Brasil recente, episódios que parecem ecoar a realidade histórica de atuações radicais — tentativas de instrumentalizar massas, redes e símbolos para testar os limites das instituições — entre bravatas e estratégias antibrasil, que se disfarçam de patriotismo enquanto corroem a estabilidade e a soberania nacional.
A despeito das lições de Sócrates, Platão e Maquiavel, a ignorância continua a guiar parte da direita brasileira, que parece disposta a romper, a qualquer custo, com a ordem democrática conquistada a duras penas.
Estranhamente, Flávio Bolsonaro chega dos Estados Unidos sugerindo intervenção militar americana na Baía do Guanabara. Em seguida, o governador bolsonarista do Rio de Janeiro promove uma operação contra traficantes no morro, com resultado de 121 mortos — a maioria, segundo o governo, com mandados de prisão ou passagens pela polícia.
Ardilosamente, os governadores da direita se reúnem para formar um consórcio de apoio ao combate às organizações criminosas no Rio de Janeiro. Cláudio Castro, governador fluminense, já opera com autoridades americanas, provavelmente com intermediação do Zero Três, enviando relatórios que sugerem que o Brasil abriga organizações terroristas — o que poderia despertar o “xerife global” a operar nas águas do Rio de Janeiro como faz no mar do Caribe.
É isso que tramam: uma loucura pelo poder disposta a sair da linha constitucional e a trilhar pelas quatro linhas do consórcio bolsonarista, em busca de atalhos para o Planalto.










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