Globo: lixo, memória curta ou falta de vergonha?

Por Benedito Dias

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Não faz muito tempo. Foi em 2017. Quando o mito nacional saiu da caserna para o palanque, a Rede Globo, a maior emissora do país, ganhou um novo slogan. Não foi criado por marqueteiro de terno caro; foi cuspido pela rua, pela rede instrumentalizada da extrema-direita. A alcunha “Globo Lixo” tomou o espaço público e a mente monopolizada da militância.

A emissora sempre teve slogans bonitos: “Cada vez mais perto de você”, “O que é bom está na Globo”, “A gente se vê por aqui”. Mas o que colou mesmo, de 2017 para cá, foi “Globo Lixo”.

Quem viveu lembra. Em 2019, o então presidente Jair Messias Bolsonaro fez as primeiras ameaças de não renovação da concessão pública da TV Globo. No ano seguinte, a declaração se repetiu. Em 2021, ao vivo, ameaçou novamente não renovar a concessão da família Marinho, que venceria em 2022. Por quê? Simplesmente porque a emissora o criticava — e governos com veia autoritária não toleram crítica. Como dizia Voltaire: “Aquele que governa através do medo sempre considerará a verdade e a crítica como seus maiores inimigos”.

A Globo virou a inimiga número um do bolsonarismo. O insulto virou doutrina. Quantas vezes perguntei a amigos: “Você viu tal notícia?”. A resposta vinha sempre com outra pergunta: “Onde?”. Ao ouvir “na Globo”, a repulsa era imediata: “Não assisto à Globo Lixo”.

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Só que política no Brasil é igual a missa antiga: direita é direita, esquerda é esquerda, e cada um tem seu lado na mesa. Isso vem desde a Bastilha. Rico é rico, pobre é pobre, ferro com barro não dá liga. E a Globo, por mais que tenha sido xingada na porta do quartel, sempre vai sentar do lado direito da mesa. Do lado do mercado. Do lado da Faria Lima.

A prova viva disso veio agora, em 2026, na sabatina com Flávio Bolsonaro, o Zero Um.

Colocaram no estúdio os dois principais âncoras da casa: César Tralli e Renata Vasconcellos. Em uma sabatina crucial para o debate nacional, os jornalistas não levaram absolutamente nada para confrontar o candidato. Nem um papel amassado, nem um recorte de jornal, nem um print de WhatsApp. E olha que não faltava material: o envolvimento com o Banco Master, os diálogos com Daniel Vorcaro, as relações suspeitas e as viagens internacionais no jatinho do banqueiro que quebrou a instituição.

Quando Tralli, visivelmente encabulado, questiona a fatia “minúscula” de R$ 134 milhões para financiar um filme fantasma — o Dark Horse (O Azarão), que ninguém viu e ninguém vai ver —, Flávio sorri e devolve no ato: “Mas a Globo também pegou dinheiro do Master”.

Opa! Como é que é?

Aí o chicote deveria arder! De frente para os principais nomes do jornalismo da casa, o candidato joga na cara da emissora que ela também negociava com a mesma fonte? Pegou dinheiro também? Mas foi empréstimo ou foi favorecimento?

Os âncoras tateiam, gaguejam, tentam disfarçar, mexem no ponto eletrônico do ouvido, fingem que ajustam o fone para ouvir melhor… mas não sai nada. Parecia tudo combinado entre assessores, produção e entrevistadores: Flávio precisava apenas lançar algo minimamente polêmico para deixar o telespectador curioso e sair ileso.

Mas o que precisa ser esclarecido e que Flávio tenta maquiar? O dinheiro administrado pelo Master não era de Vorcaro; era recurso de aposentadoria de servidores públicos: garis, auxiliares de limpeza, operadores de máquinas, merendeiras, professores e administrativos em geral. Só de Aparecida de Goiânia, aqui no nosso Goiás, foram R$ 40 milhões. E isso é só a ponta do iceberg.

O rombo nacional é estarrecedor. São 18 fundos de previdência municipal e estadual que aplicaram quase R$ 2 bilhões em letras financeiras do Master, sem qualquer garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Dinheiro que agora sairá direto do lombo do contribuinte.

Quer a lista dos surrupiados? Anote aí, porque essa conta roda o Brasil:

A gatunagem passou pelo Estado do Rio de Janeiro, via Rioprevidência, enterrando R$ 970 milhões; pelo Estado do Amapá, com R$ 400 milhões; pela prefeitura de Maceió, com R$ 97 milhões; São Roque (SP), R$ 93 milhões; Cajamar (SP), R$ 87 milhões; Itaguaí (RJ), R$ 59,6 milhões; Estado do Amazonas, R$ 50 milhões; a nossa Aparecida de Goiânia (GO), R$ 40 milhões; Araras (SP), R$ 29 milhões; Congonhas (MG), R$ 14 milhões. E a fila continua: Fátima do Sul (MS), Santo Antônio de Posse (SP), São Gabriel do Oeste (MS), Paulista (PE), Jateí (MS), Angélica (MS), Santa Rita D’Oeste (SP) e Campo Grande (MS).

E para onde foi esse dinheiro? Segundo as investigações, virou financiamento milionário para projetos obscuros, além de propinas, viagens internacionais, festas e a libertinagem da turma de Vorcaro.

Garanto que, se o tal filme O Azarão um dia for exibido, não haverá nele as frases emblemáticas de Jair Messias Bolsonaro: “Dou golpe no mesmo dia”, “Vai comprar vacina na casa da mãe”, “Minha vontade é encher a tua boca com uma porrada” ou “O regime matou pouco, deveria ter matado uns 30 mil, inclusive o FHC”. Tampouco mostrarão sua votação no impeachment dedicando o voto ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador da ditadura militar que usava choques elétricos, pau de arara, espancamentos e tortura psicológica na frente de crianças. Uma barbárie tão profunda que faria até o cadáver de Hitler estrebuchar no túmulo.

Garanto que nada disso estará na tela do Azarão.

Resta a pergunta: de que lado está a Globo em 2026? Memória curta ou falta de vergonha? Responda você, telespectador.

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