Flor raríssima encontrada na Serra do Rio do Rastro só existe em Santa Catarina

Uma pequena flor que sobrevive entre os paredões rochosos da Serra do Rio do Rastro colocou Santa Catarina no centro de uma importante descoberta ambiental. Conhecida como margarida-das-nuvens, a espécie Hysterionica pinnatisecta possui apenas uma população registrada em todo o planeta — localizada na Serra Geral catarinense, no município de Lauro Müller.

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Delicada, rara e ameaçada de extinção, a planta cresce em condições extremamente específicas, ocupando fendas de rochas basálticas expostas entre mil e 1,3 mil metros de altitude, em um trecho de aproximadamente 800 metros da serra.

A descoberta e os estudos sobre a espécie vêm sendo conduzidos pela bióloga e doutoranda em Ciências Ambientais Júlia Gava, que destaca a singularidade da planta e o risco que ela enfrenta.

“Até o momento, essa planta só foi registrada na Serra do Rio do Rastro. A única população conhecida dentro da ciência está nessa faixa de altitude da serra. É uma planta extremamente rara e que vive em um ambiente muito específico”, explicou a pesquisadora em entrevista ao portal Sul in Foco.

A margarida-das-nuvens pertence à mesma família dos girassóis, da carqueja e da vassoura. Adaptada às condições severas da Serra Geral, ela resiste a ventos intensos, frio extremo, neblina constante e temperaturas negativas.

Segundo Júlia Gava, a espécie chama atenção também pela forma incomum como sobrevive. “Ela é uma espécie rupícola, ou seja, cresce diretamente na rocha basáltica. Essa planta suporta ventos extremamente fortes porque vive nos paredões verticais da serra, recebendo diretamente toda a ação do clima”, detalha.

O nome popular da flor nasceu justamente da paisagem típica da região. Cercada frequentemente por nuvens e nevoeiros, a planta acabou ficando conhecida como margarida-das-nuvens por viver em meio ao clima característico da parte mais alta da Serra do Rio do Rastro.

Além da beleza e da raridade, pesquisadores demonstram preocupação com o futuro da espécie. Como existe apenas uma população conhecida no mundo e fora de uma área oficialmente protegida, a planta foi classificada pelo Centro Nacional de Conservação da Flora como criticamente ameaçada de extinção.

De acordo com a pesquisadora, qualquer alteração ambiental pode comprometer diretamente a sobrevivência da espécie. “Ela ocorre em um ambiente com interferência humana e qualquer impacto que prejudique essa população pode levar à extinção da espécie. Hoje, esse é o único local conhecido no mundo onde ela existe”, alerta.

Entre as principais ameaças identificadas durante a pesquisa está a presença de uma espécie exótica invasora conhecida como tapete-inglês, planta originária da Ásia introduzida no Brasil para fins ornamentais. Com o passar do tempo, ela acabou ocupando áreas importantes dos paredões rochosos da serra.

“Hoje o maior impacto observado é justamente a presença dessa espécie invasora. Ela não pertence naturalmente à Serra do Rio do Rastro e o ambiente não está em equilíbrio com a presença dela. O tapete-inglês acabou colonizando vários paredões rochosos onde antes existiam plantas nativas, inclusive áreas importantes para a margarida-das-nuvens”, explicou Júlia.

A pesquisadora reforça que a preservação depende tanto do poder público quanto da conscientização da população e dos visitantes da serra.

“Muitas pessoas ainda não conhecem os impactos das espécies exóticas invasoras. Quando elas chegam em ambientes extremamente específicos e frágeis como os paredões da Serra Geral, podem comprometer espécies raras que só existem naquele local”, conclui.

A existência da margarida-das-nuvens transforma a Serra do Rio do Rastro não apenas em um dos cartões-postais mais impressionantes de Santa Catarina, mas também em um verdadeiro santuário natural de importância mundial.

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