FERRO DE SOLDA – Operação Liberdade na Mansão do Botânico

Por Benedito Dias

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Existem perguntas que atravessam séculos:
Quem somos? Para onde vamos? Existe vida após a morte?

O Brasil, claro, tem seus próprios enigmas: Varginha com seus ETs, luzes estranhas na Chapada dos Guimarães, Alto Paraíso de Goiás em conexão com seres de outros mundos, a Serra do Roncador com suas aparições místicas, e São Tomé das Letras com seus extraterrestres.

Mas nada disso se compara à aparição do ferro de solda na mansão do Botânico.

Foi de repente — num abrir e piscar de olhos — ao som da “oração” patrocinada, ele apareceu.

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Curiosamente, ninguém naquela casa jamais havia visto um instrumento daquele tipo. Em depoimento, Bolsonaro disse ter sofrido crise psicótica em razão de medicamentos. Na zonzeira mental, sem saber seu paradeiro, deu de cara com o inesperado artefato:

— O que é isso?

Bolsonaro alega que ouviu vozes vindas da tornozeleira. Loucura? Talvez. Mas, convenhamos, há coisas que não são gente… e falam. Os robôs do Carlos Bolsonaro, por exemplo, davam opiniões políticas, pediam votos, mentiam feito gente.

A jumenta de Balaão falou quando não havia ninguém digno de falar.

Estou quase acreditando que a tornozeleira, desesperada, prestes a ser derretida, tenha gritado por socorro.

Do lado de fora, uma suposta “vigília de oração”. Nada daquelas orações que quebram cadeias espirituais — ali era outro tipo de liturgia.

Lá dentro, muita fumaça: o que os advogados não conseguiram com argumentos jurídicos, o maçarico de ponta aguda tentou fazer.

Era a Operação Solda-Liberdade — pátria amada, idolatrada… salve-se quem puder.

Mas convenhamos de novo:
O que faz um ferro de solda na casa de rico?

Na casa de pobre ele mora na despensa, pendurado num prego torto, com remendo no cabo e cheiro de fio queimado denunciando anos de serviço.

Na casa de rico — onde até a lâmpada é trocada pelo eletricista do condomínio — ferro de solda é um refugiado social, um intruso.

Ainda assim, virou protagonista nacional. Manchete global.

Como diria um profeta pós-moderno:
“No fim dos tempos, um ferro de solda se levantará contra a tornozeleira eletrônica, e muitos se espantarão.”

O surto mais organizado do mundo

A tese oficial tenta nos convencer de que tudo não passou de uma “crise psicótica”. O sujeito teria perdido o controle das funções mentais, mas não perdeu o caminho da pistola de soldar.

Freud, pai da psicanálise, ficaria confuso e não arriscaria diagnosticar tamanha lucidez. Aristóteles, por sua vez, ao afirmar que o homem é um animal político, não fazia crítica à espécie humana, mas um elogio: entre todos os seres do reino animal, apenas o homem seria capaz de viver a pólis, entender seus dilemas, debater o bem comum e organizar a própria convivência por meio da razão.

Mas se tomarmos Aristóteles como régua, Bolsonaro surge como um enigma. No Exército, não conseguiu agir como militar; no Parlamento, por 27 anos, na democracia, dedicou-se a defender tortura, ditadura e pena de morte; na Presidência, jamais conseguiu ser republicano ou chefe de Estado, comportando-se como alguém acima da lei; Na condição de candidato derrotado, não conseguiu aceitar o veredito do povo, como se o voto fosse propriedade privada; e, como cidadão comum, não consegue submeter-se ao ordenamento jurídico.

Aristóteles identificou o homem como animal político — Bolsonaro, ao contrário, parece ter inaugurado uma nova categoria: um ser humano que não é pólis, que não compreende a cidade, a lei, o convívio ou a legitimidade democrática, é um espécime que faria o próprio Aristóteles pedir revisão bibliográfica.

E quem acredita que um homem de 70 anos — que não troca a bateria do próprio relógio — se arriscaria a derreter plástico no próprio tornozelo? Ninguém, claro, não por covardia, mas por falta de habilidade técnica. Abatido, sequelado, não seria de bom alvitre queimar a própria canela, assim, alguém da equipe, cuidadosamente, executou o serviço, para não ferir o ferido.

Para o gado, o homem é honesto”, “imbrochável”; para o brasileiro consciente, é um medroso, assustado, que confunde ranger de porta com som de sirene, que viu no ferro de solda da Leroy Merlin, a chance de se juntar ao 03 na terra do Trump.

Afinal, violar a tornozeleira para quê?

Para ir à “vigília de oração” do Flávio Bolsonaro?

Nos tempos em que orávamos uns pelos outros, pela paz mundial e libertação dos cativos, era o pastor que organizava as vigílias. Hoje, são os políticos. Vale mais uma convocação para vigílias políticas do que oração no templo. Deus está de olho nessa gente!

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