E o Zema?

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Depois da última entrevista de Romeu Zema, os mineiros andam com vergonha até da própria sombra. Uns enfiaram a cara no saco de estopa, outros se engasgaram com a saliva da fala do governador — e não há bombeiro treinado que os desentale. Tem gente tonta com a tontura do Romeu, como quem bebeu cachaça após desilusão amorosa. O homem é um xarope de jurubeba. Sabe aquela raiz que as avós ferviam para expulsar lombrigas das crianças? Pois é! Exatamente aquilo, só que com efeito contrário: em vez de expulsar vermes, atrai parasitas políticos sem noção, que o colocam entre os candidatos da direita ao Planalto.

O cidadão é um chá de boldo em excesso — dose exagerada — que parece aliviar o estômago, mas, na verdade, causa irritação gástrica e efeitos colaterais maléficos à saúde humana. O mineiro é um coquetel de ervas amargas, jurubeba do sertão.

Visto como o sabor mais azedo da  culinária conservadora, Zema, embora tenha sido eleito governador de Minas por duas vezes — não se sabe como, mas desastres também vencem eleições —, em entrevista à GloboNews, teve desempenho vexatório, digno de repúdio nacional.

Ao responder a Otávio Guedes e Júlia Duailibi, classificou o 8 de janeiro de 2023 — a invasão às sedes dos Três Poderes — como “apenas uma manifestação de descontentamento”. E ainda disse que ninguém deveria ser condenado por isso, porque “nunca se viu condenar ninguém pelos mesmos motivos em outro país do mundo”.

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Uai, quer dizer que agora a base das nossas leis não é mais a Constituição Federal, mas um manual de direito comparado escrito em cima da coxa, em guardanapo de algum café sei lá de onde? Zema, deixou transparecer que para condenar alguém no Brasil, primeiro é preciso que outro país tenha condenado alguém pelo mesmo motivo. O cara é a materialidade de todas as ignorâncias somadas, um risco à informação, um vírus letal à inteligência humana. Mas, a despeito dessa análise, o dono da cadeira de governador na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, do Estado de Minas Gerais, precisa ser objeto de um estudo patológico para se diagnosticar com precisão a cabeça desse ser vivo.

Alguns jornalistas chamaram-no de burro. Eu acho isso um desrespeito ao animal, cuja capacidade de cognição, de acordo com especialistas em comportamento de equinos, é notável. O burro, apesar de teimoso, se adapta com facilidade a ambientes e situações diferentes, é capaz de abrir porteiras e passar por caminhos acidentados. É bastante útil ao homem do campo e não merece tal comparação.

O golpe de 1964

Sobre o golpe militar de 1964, Zema resolveu aumentar o tom da insensatez. Chamou o episódio de “revolução” e disse que o período “manteve o Brasil na rota do crescimento”. Negou que tenha havido golpe.

Negar a COVID-19, até certo ponto, foi tolerável, compreensível — afinal, era um vírus recém-identificado, dependia de estudos, diagnósticos e comprovação científica. O tempo foi curto para lidar com as mutações e variantes virais em todo o mundo. Mas negar a história?

A história, meu caro, é uma ferida aberta, com documentos, fotos, testemunhos e cicatrizes vivas. É negar mortes, torturas, exílios, sonhos destruídos, famílias despedaçadas, liberdade, ruptura democrática, perseguições e desaparecimentos de pessoas. É cuspir no túmulo das vítimas e confundir tortura com poder de polícia.

Que “revolução” é essa que prendeu, matou, torturou e calou uma geração inteira? Só mesmo quem acha que pode ensinar história com base em mensagens de WhatsApp engole um absurdo desses.

De Tancredo e JK a Zema

Minas Gerais já foi o berço de gigantes políticos. Juscelino Kubitschek, que ousou sonhar e construiu Brasília. Tancredo Neves, que negociou com habilidade o retorno à democracia. Homens que, com virtudes e defeitos, marcaram a história do país.

Tancredo e JK devem estar se estrebuchando de vergonha em suas sepulturas, vendo Minas ser governada por um ser ignorante, desinformado, amargo, azedo como limão verde, e que ainda sonha em chegar ao Planalto como se o Brasil fosse um curral de gado à espera de um novo capataz.

A íngua da democracia

Zema é uma íngua política — aquele caroço incômodo na virilha da democracia. A íngua, na maioria das vezes, desaparece sozinha; noutras, pode evoluir para câncer. Todo cuidado é pouco com essa gente. O que consome os neurônios dos mineiros é saber como esse senhor passou pelo rigor do teste de filiação do Partido Novo.

Se JK, Tancredo e outros mineiros ilustres que já se foram pudessem falar, chegariam ao extremo de trocar o pão de queijo por uma dose dupla de pinga para, pelo menos por uma noite, esquecer da vergonha a que esse ser os submete. Porque o homem é  quase um velório de massacrados, uma espécie de caroço inflamado na virilha mineira, a indigestão do povo. Misericórdia!

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