O preço do desenvolvimento
Alguns temas dividem a cidade e já não cabem mais apenas nas rodas discretas de conversa. Ecoam nas esquinas, nos bares, nas filas de mercado e, principalmente, à beira-mar: o que o Porto de Imbituba realmente soma para Imbituba? E qual o preço desse chamado desenvolvimento?
O Jornal O Popular Catarinense percorreu a cidade em plena temporada. Moradores, veranistas e turistas relatam incômodo recorrente com o mau cheiro que, segundo eles, exala das operações portuárias e alcança um dos principais cartões-postais do município: a Praia da Vila.
Desenvolvimento que fede não é progresso. É conflito.
Quanto o Porto deixa para a cidade?
O Relatório de Sustentabilidade aponta: R$ 5 milhões em ISS em 2024.
Com base em estudos da ANTAQ, BNDES e CEPAL, aplica-se o multiplicador econômico indireto para cada 1 real direto entre 2,5 e 4 vezes. A conta é simples:
Impacto Total = 5.000.000×Multiplicador (2,5 a 4)
Resultado: algo entre R$ 12,5 milhões e R$ 20 milhões por ano de impacto econômico estimado.
Parece muito? Vamos contextualizar.
Segundo dados do Tesouro Nacional, a Receita Corrente Líquida de Imbituba em 2025 foi de R$ 384.801.234,00.
Se o Porto representa entre R$ 12,5 milhões e R$ 20 milhões no cenário mais otimista, estamos falando de:
- 3,24% a 5,20% da receita municipal.
Percentualmente? Baixo.
Politicamente? Vendido como pilar central da economia. Os números mostram que a realidade é outra.
O que entrega diretamente?
O debate ambiental é quase tabu. Falar de impacto sobre solo, água e ar é tocar em interesses de poucos, mas muito influentes.
Moradores da região central e de Nova Brasília relatam presença constante de pó preto nas casas. Em determinados dias, o odor descrito lembra esterco em decomposição, possivelmente associado a resíduos de cargas agrícolas como milho e soja.
É preciso perguntar: existe monitoramento público contínuo da qualidade do ar? Existe estudo epidemiológico? Existe transparência ativa? Ou existe silêncio conveniente?
Porto-Cidade: relação técnica ou política?
Alguns moradores afirmam que o fato de o diretor-presidente do Porto ser da cidade não alterou a equação. Para críticos, a atuação de Christiano Lopes estaria mais alinhada a arranjos políticos do que à construção de uma relação Porto-Cidade equilibrada.
Percepção popular não é sentença. Mas também não surge do nada.
Os R$ 17 milhões parados
Há mais de três anos, R$ 17 milhões destinados à recuperação do acesso Sul aguardam solução efetiva.
O prefeito Michell Peninha, outrora crítico da lentidão, agora soma meses de gestão sem resolver o gargalo. A conta da transição e da gestão já ultrapassa um ano e cinco meses.
Enquanto isso:
- Vidas foram perdidas no trecho.
- Lombadas instaladas e arrancadas.
- Buracos se multiplicam.
- Veículos danificados.
- A população pagando a fatura da morosidade.
Desenvolvimento que não consegue pavimentar um dos principais acessos é desenvolvimento de PowerPoint.
A frente do Porto e o acesso Norte
O recapeamento da via Manoel Florentino Machado foi comemorado como marco do início da gestão Peninha e Madalena Nunes. Poucos meses depois, buracos reaparecem. Nenhuma movimentação concreta de Porto ou Município para solucionar.
Lombadas eletrônicas anunciadas para dar fluidez ao acesso norte? Até agora, promessa.
A operação midiática no início da gestão, na madrugada, ficou bonita na rede social. No asfalto, não.
E agora, sem Beto?
A saída de Beto Martins do Governo Jorginho Mello deixa Imbituba sem representante de peso na engrenagem estadual.
Beto sai com entregas robustas ao Estado e articulação reconhecida que fortalece o setor inclusive com abrangência nacional. Desincompatibiliza-se de olho em eventual vaga de suplente ao Senado, seja via Carlos Bolsonaro ou Caroline De Toni.
Imbituba perde força política num momento em que precisaria de mais influência, não menos.
A pergunta que permanece
Qual é o preço do desenvolvimento?
Se o impacto econômico representa até 5% da receita municipal, vale:
- O pó?
- O odor?
- O desgaste viário?
- A insegurança nos acessos?
- O silêncio institucional?
A cidade toda se desenvolve?
Ou apenas alguns enriquecem respirando em suas residências longe de Imbituba, nem sequer respiram o ar que a população respira?
Desenvolvimento que não melhora a vida coletiva não é progresso. É concentração!
E Imbituba precisa decidir se quer ser cidade-portuária ou continuar sendo apenas quintal logístico.









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