A eleição de Rodrigo Paz na Bolívia, neste domingo (19), marca uma inflexão preocupante no cenário político sul-americano. Após quase duas décadas de avanços sociais sob governos progressistas, o país andino agora se junta ao bloco de nações governadas pela direita — um movimento que pode significar o enfraquecimento de políticas públicas voltadas à redução da desigualdade e à inclusão social.
A esquerda boliviana, que por anos foi referência em programas de redistribuição de renda e valorização dos povos originários, sofreu um revés após divisões internas entre Evo Morales e Luis Arce. O candidato do MAS, partido que protagonizou uma verdadeira transformação social no país, obteve apenas 3% dos votos no primeiro turno — reflexo de uma conjuntura de crise econômica e desgaste político.
Com a vitória de Paz, a direita passa a comandar cinco dos doze países da América do Sul. Ainda assim, o campo progressista segue majoritário no continente, com lideranças como Lula (Brasil), Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile) e Yamandú Orsi (Uruguai) defendendo pautas de justiça social, soberania regional e combate à desigualdade.
Especialistas alertam para os riscos da alternância ideológica em contextos de fragilidade institucional. “Essa oscilação pode abrir espaço para retrocessos democráticos e autoritarismos”, afirma Regiane Nitsch Bressan, professora da Unifesp. A história recente da América Latina mostra que, quando a extrema-direita avança, os direitos sociais e trabalhistas costumam recuar.
A chamada “onda rosa” do início dos anos 2000 não foi apenas um fenômeno eleitoral: foi um movimento de resposta popular à falência das políticas neoliberais dos anos 1990. Com o apoio do crescimento das commodities, governos progressistas investiram em educação, saúde, moradia e programas de combate à fome — políticas que tiraram milhões da pobreza e colocaram a América do Sul no mapa das experiências bem-sucedidas de inclusão social.
O desafio agora é manter viva a chama da democracia e da justiça social em um continente marcado por desigualdades históricas. A vitória da direita na Bolívia é um alerta: sem unidade e renovação, os avanços conquistados com tanto esforço podem ser desmontados em nome de agendas que priorizam o mercado em detrimento das pessoas.
A luta por uma América do Sul mais justa, solidária e soberana continua. A história já mostrou que quando o povo se organiza, a esperança vence o medo.









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