O discurso duro de Caiado desaba: PMs de Goiás são investigados por agiotagem, extorsão, homicídio, apropriação e lavagem de dinheiro.
O governador Ronaldo Caiado dorme e acorda respirando — ou melhor, rotando — segurança pública. Trinta e seis anos depois de abandonar o sonho de ser presidente da República, ele continua ruminando a derrota de 1989. À época, disputando com 21 candidatos — entre eles Collor, Lula, Brizola, Mário Covas, Afif Domingos, Aureliano Chaves, Gabeira e Enéias —, Caiado amargou o 10º lugar, com 457.446 votos, o equivalente a 0,68% da votação válida.
Parece que, depois da eleição de Bolsonaro — aquele momento insano da política brasileira —, todo mundo passou a achar que pode subir a rampa do Planalto. Não sei se o Brasil cometeria o mesmo erro duas vezes, mas quando vejo aquelas cenas ridículas das manifestações em frente aos quartéis, em 2022 — gente marchando feito soldados de cavalaria, prestando continência a fantasmas, gritando palavras de desordem e exibindo faixas com descrições tipificadas como crime —, não duvido que repita a insanidade e legitime de novo a ignorância no poder.
Goiás sempre teve fama de estado tranquilo — talvez porque as organizações criminosas tenham aprendido a viver discretamente, como vizinhos silenciosos em condomínios de luxo. Afinal, a PM não faz ronda em portões automáticos, nem há escutas autorizadas nos presídios. A paz aparente é só verniz em chão sujo: basta varrer para levantar a poeira.
Ao identificar os mortos da operação de Cláudio Castro, no Rio, descobriu-se que seis eram de Goiás. O governador gelou, secou a saliva, engoliu seco o discurso que há seis anos vinha sustentando o seu governo. Goiás, ao contrário do que ele diz, é uma das sedes do Comando Vermelho no Brasil. Aqui, bandido não apenas se cria: mora, vive, manda e tem parceiros fardados.
Em 2023, Caiado chegou a pedir ao presidente do TJGO o afastamento de um desembargador que ousou criticar a Polícia Militar do Estado. Adriano Linhares foi afastado, mas reintegrado pelo CNJ. Segundo a imprensa, foi pressionado a deixar a Câmara Criminal e, por conseguinte, a relatoria de um processo envolvendo o primo do governador, acusado do assassinato de um empresário na cidade de Anápolis.
Na reunião da PEC da Segurança Pública, em Brasília, o governador apareceu de peito estufado, jogando água fria na fervura da proposta de emenda constitucional que estabeleceria influência do governo federal no combate ao crime organizado nos Estados. Criticou a proposta do governo Lula — não por discordar da ideia, mas por temer dividir a glória do combate ao crime com Brasília.
O que intriga é que bastou Cláudio Castro incendiar um morro do Rio para o fogo se alastrar em outros Estados — inclusive em Goiás, onde, segundo o governador e seus asseclas, bandido não se cria. Na quarta-feira (5), 32 pessoas foram presas. Segundo a polícia, são membros e simpatizantes do Comando Vermelho que homenageavam publicamente os seis traficantes de Goiás mortos no Rio de Janeiro. Uai, mas se não tem bandido por essas bandas, quem são esses?
O que Lula propõe é somar forças, como já se faz na educação e na saúde: enviar recursos, tecnologia, armas, homens e inteligência para desmontar as organizações criminosas. A direita, no entanto, trabalha o relatório do projeto de lei antifacção — de autoria do governo federal — reduzindo a participação da Polícia Federal no combate ao crime organizado. As mudanças atendem aos interesses dos governadores bolsonaristas, que não querem o braço federal combatendo o crime em seus estados.
Uma das principais alterações propostas pelo deputado Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de Tarcísio de Freitas, é que a atuação conjunta da Polícia Federal e das Polícias Estaduais ocorra somente a pedido formal dos governadores.
A direita, que não quer mostrar a verdadeira face da violência em seus estados, teme o uso de câmeras nos uniformes da polícia. Em Goiás, Caiado corre disso mais que o cramunhão da cruz.
Se a Polícia Federal usar vassoura para varrer debaixo do tapete, vai arrastar terra grossa. A poeira levantada pode manchar as paredes do palácio da falsa moral.
O mais triste de tudo isso é saber que o relator da proposta antifacção é dono da frase: “É vergonhoso” para um policial “não matar nem três pessoas em cinco anos”. Frase dita no tempo em que ele foi comandante da Rota em São Paulo. À época, de 2010 a 2015, jovens apareciam segurando faixas de protesto contra operações na Baixada Santista: “Ser pobre não é crime, parem de nos matar.”











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