Cotas Raciais, por que sim?

Por Selma Adão

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Vivemos em um país com 112,7 milhões de pessoas negras, que totalizam
55,2% da população. O Brasil levou muito tempo para reconhecer o
numero de negros existentes no país, e a diversidade etnorracial.

Não podemos esquecer que o país que mais traficou escravizados entre os
séculos 15 e 16, passando dos 5 milhões de pessoas foi o Brasil. Durante
quase três séculos e meio, o Brasil foi o maior território escravista do
hemisfério ocidental, seqüestrando e embarcando à força tantas vidas
africanas.

Após a abolição em 1888, um dos acontecimentos mais importantes de
nossa historia, que aconteceu por meio das campanhas populares,
resistência dos escravos. Os ex- escravizados foram libertados sem acesso
á terra, moradia ou políticas de inserção social, resultando marginalização,
pobreza extrema e favelizaçao. Mesmo sendo esses homens e mulheres
que desenvolveram o Brasil, não receberam condições de trabalho,
enfrentaram o racismo estrutural, e a preferência do país pelos imigrantes
europeus.

A vinda de imigrantes europeus para o Brasil após a abolição da
escravidão, foi intensamente incentivada pelo governo e fazendeiros de
café para substituir a mão de obra escravizada, chegavam em massa,
recebendo instrumentos para trabalhar, terra e moeda em espécie.
Querendo apagar a herança escravocata brasileira, o governo passa a
estimular e suprir as necessidades dos imigrantes europeus, a fim de
promover o branqueamento da população. Assim milhares de exescravizados são jogados a própria sorte, sofrendo as mais diversas e
perversas perseguições como a Lei da vadiagem que criminaliza a
ociosidade habitual de pessoas válidas para o trabalho e sem renda
própria, um controle social e racial após abolição, encarcerando e
mulheres negras.

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Durante esse período os escravos libertos foram proibidos por lei de
freqüentar escolas publicas, impediam a matricula de ex-escravizados
mesmo libertos, na educação primária e secundária. Essa exclusão
estrutural restringia o acesso ao ensino formal, mantendo a maioria da
população negra analfabeta. Diante de esses e tantos outros
impedimentos de ascensão da população, o Brasil tem um a dívida e um
débito histórico decorrente de mais de 350 anos de escravidão e da falta
de políticas de inclusão após a abolição, resultando em desigualdades.

Essa desigualdade é resultado da pobreza, acesso á bens básicos como
saúde, educação, com os negros sendo 75% dos mais pobres do nosso
país, refletindo em uma divida não quitada. Portanto as cotas raciais
representam uma política pública fundamental, reparatória para a
construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Seu impacto vai
além do acesso á universidade, elas promovem inclusão social, fortalecem
a democracia e contribuem para a reparação histórica de injustiças
sofridas pela população negra.

Em um país marcado por desigualdades profundas, as cotas não são um
ponto final, mas um passo essencial rumo á equidade racial e social. As
ações afirmativas de cotas nas universidades aumentaram
significativamente a diversidade nas universidades federais brasileiras
elevando a presença de alunos negros, indígenas e de escola pública
para mais de 50% das matriculas e, sobretudo derrubando o mito de
desempenho inferior, já que alunos cotistas apresentam trajetória
acadêmica equivalente ou superiores aos demais alunos.

As cotas raciais existem porque o racismo existe. Porque a escravidão não
terminou em1888 e a desigualdade segue tendo cor, classe e território.

A universidade pública sempre foi majoritariamente branca e elitizada,
atacar as cotas é sustentar um projeto excludente que não representa a
realidade do povo brasileiro e catarinense. Como patrimônio público, a
universidade tem o dever ético, político e cientifico de combater o
racismo, e não de reproduzi-lo.

Devemos reconhecer que nos últimos 20 anos, as ações afirmativas
mudaram o perfil da universidade brasileira para corrigir uma limitação e
transformar positivamente os espaços responsáveis pelo conhecimento e
pela formação das novas gerações.

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