Coragem para maquiar o balanço

Antonio Donato

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O governador Tarcísio de Freitas publicou  em 29/12 artigo laudatório sobre seus três anos de mandato. Apresenta-se como alguém que teve “coragem para fazer o impossível acontecer” e lista uma série de supostas entregas. O problema é que, ao confrontar o discurso com os fatos, o que emerge são meias verdades, omissões relevantes e afirmações que não se sustentam nos dados oficiais.

Vendida como promessa de mais investimentos, melhoria do serviço e tarifas menores, a realidade da privatização da Sabesp tem sido outra: problemas recorrentes de falta de água, turbidez e mau cheiro, associados a aumento real das tarifas. Em meio ao agravamento da crise hídrica, o governo e a empresa privatizada sequer fizeram o mínimo: uma ampla campanha de economia de água e um plano de contingência para hospitais, escolas e bairros mais afastados. O impossível, aqui, foi o serviço melhorar.

Celebra como conquistas de sua gestão o túnel Santos–Guarujá, o trecho Norte do rodoanel e a Linha 17-Ouro do metrô. No caso do túnel, omite que metade dos recursos virá do governo federal. Nas demais obras, nenhuma iniciada em sua gestão. O Rodoanel Mário Covas já possui 132 km em operação e o trecho entregue agora, de 24 km, já tinha cerca de 80% executado. Na Linha 17-Ouro, obra estava em estágio avançado e o governo reduziu o projeto original. Concluir o que já estava adiantado não é façanha, é obrigação.

Outra falsidade são os dados do programa Casa Paulista. Afirma ter “entregue” mais de 76 mil moradias. Dados oficiais mostram que 68% desse número corresponde a cartas de crédito de até R$ 16 mil, destinadas apenas à entrada em financiamentos privados. Subsídio é política pública legítima, mas não é unidade habitacional entregue.

Na segurança pública, exalta a queda de homicídios, latrocínios e roubos, mas silencia sobre o aumento dos feminicídios, que passaram de 181 para 207 vítimas em apenas um ano. Ignora ainda a explosão de furtos e roubos de celulares, os golpes cibernéticos e a persistente letalidade policial.

Na saúde, Tarcísio afirma ter criado 8.000 leitos, mas os dados do CNES mostram que São Paulo tinha 31.373 leitos públicos em dezembro de 2022 e 31.159 em setembro de 2025. Ou seja, o estado perdeu 214 leitos no período.

O mais revelador da gestão é o que ficou fora do balanço: o escandaloso pagamento de mais de R$ 2 bilhões a concessionárias de rodovias por alegados prejuízos na pandemia; R$ 3,7 bilhões à concessionária da Linha 6 para garantir entrega parcial no ano eleitoral de 2026; cerca de R$ 3 bilhões perdidos na venda das ações da Sabesp abaixo da cotação de mercado.

Soma-se a isso a regularização de terras griladas no Pontal do Paranapanema, com renúncia de R$ 18,5 bilhões, além de mais de R$ 80 bilhões em renúncias fiscais concedidas sem transparência, conforme diz o TCE. E o governo até hoje não explicou a corrupção bilionária com ICMS envolvendo altos funcionários da Secretaria da Fazenda.

A expansão dos pedágios Free Flow e o aumento de 63,5% no ICMS da gasolina (em torno de R$ 0,60 a mais por litro) durante sua gestão foram “esquecidos” pelo governador.

O espaço curto não permite abordar outras narrativas falsas de Tarcísio. O governador fala em legado, mas o que seu governo deixa até aqui é a marca de uma gestão generosa com interesses privados e parcimoniosa com os direitos da população, sustentada por marketing, omissões e distorções, próprias do bolsonarismo.

Antonio Donato Madormo (São Paulo, 7 de agosto de 1960), mais conhecido como Donato, é um administrador de empresas e político brasileiro. Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde a década de 1980, foi vereador da cidade de São Paulo por cinco mandatos e atualmente é deputado estadual de São Paulo.

Antonio Donato é deputado estadual pelo PT, líder da Federação PT/PcdoB/PV na Assembleia Legislativa de São Paulo

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