Chegou a Hora de a Onça Beber Águae o Gado Comer Lama

Por; Benedito Dias

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O clã Bolsonaro parece ter fracassado em todas as suas tentativas tresloucadas de se agarrar ao poder. Após uma eleição improvável em 2018 — numa democracia sólida, com mandatos definidos e regras claras — o “mito” esqueceu de Fernando Collor de Mello, eleito em 1989 como “caçador de marajás”, político jovem, sob os aplausos da classe média. Não foi cauteloso. Deixou-se levar por elogios de aduladores e acabou sofrendo impeachment.

Bolsonaro, acreditando poder surfar numa onda popular que o autorizasse a romper com o sistema, vivia falando no artigo 142 e acabou se melecando nas babas dos bajuladores de plantão.
Dois, três, quatro mandatos… com ou sem eleição, ninguém sabe ao certo — mas era isso que Bolsonaro almejava: um reinado à moda Maduro. Poderia ter sido um presidente, como tantos outros: entrar para a história com feitos concretos. Mas preferiu os aplausos de mãos alienígenas, que executam movimentos involuntários sem o comando do cérebro. Seu histórico pouco recomendável já dizia que seria um presidente de perfil pouco republicano — nervoso, mal-educado, de honestidade questionável e não comprometido com os limites da lei.

Sua derrota em 2022 teve gosto de fel. Assim como sua eleição parecia um milagre político, a perda do cargo foi um pesadelo inacreditável para ele e seus seguidores. Segundo Valdemar Costa Neto, o ex-presidente, após a derrota, mergulhou num estado de isolamento e quase morreu. Foi nessa névoa de desilusão que o mito se deixou levar por conselhos que o empurraram para a forca que se arma em setembro.
Seu governo, dominado por uma ala militar — os “super-homens” da república — foi marcado por petulância, negacionismo e ignorância. Tudo isso escancarou-se na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, cujo vídeo veio à tona. Com linguagem chula e nível rasteiro, Bolsonaro sugere armar a população, Ricardo Salles fala em aproveitar o foco do coronavírus para “passar a boiada”, Weintraub sugere prender ministros do STF, o general Augusto Heleno, do GSI, fala em “consequências imprevisíveis” caso o STF continuasse “interferindo” — um recado com cheiro de pólvora institucional.

E Damares Alves? Essa foi ao extremo: propõe prender governadores e prefeitos. Não foi figura de linguagem, nem fala isolada ou impulsiva — foi, na verdade, a revelação de um plano astucioso, sorrateiro, malandro, que rondava os corredores do Planalto como um fantasma. Não se tratava de um governo em busca de soluções, mas de uma cúpula disposta a rasgar a Constituição em cima do púlpito, com a Bíblia numa mão e a baioneta na outra.

Foram esses “conselheiros” — ministros, generais, ideólogos do mal e fanáticos da fé — que ajudaram a apertar a corda no pescoço do mito. O entusiasmo inconsequente parecia crescer com os “profetas do cercadinho”, autoconsagrados pastores, que dia após dia liberavam revelações nada divinas sobre quem eles denominavam o ungido do Senhor. Com acesso livre ao Alvorada, protegidos por Michelle, esses reveladores vaticinavam o destino do Messias brasileiro.

E como de praxe nesse meio, ninguém profetiza derrota. O que sai da boca é do tipo:
“Meu servo, eis que te digo: o inimigo está tentando te derrubar, mas aquele que está contigo é maior!”
Agora, veja: o homem não conhece nada de Bíblia, nunca ouviu falar de dons espirituais, não sabe o que é heresia e, na sua ingenuidade, jamais imaginou que estaria sendo manipulado por bajuladores ou oportunistas.
Resultado: a forca.

Outro delírio que o cegou foi a bandeira de Israel. Pensou: “Se Israel é a nação do coração de Deus e eu a defendo, Deus vai me proteger.” Só que a questão é bem mais profunda — e escrever sobre isso exigiria outro artigo. Mas já adianto: o buraco é bem mais embaixo.

A despeito do histórico nada republicano do ex-presidente, ele foi vítima de interesseiros, ignorantes e puxa-sacos – e, por sua vez, fez mal a muita gente. Mais de 400 pessoas presas. Um monte de alienados alimentados por fake news, jornalistas foragidos, general e deputados na cadeia. Nesse balaio de maldades, a igreja evangélica levou a pior. Sob orientação de líderes – a maioria com segundas intenções – os evangélicos embarcaram na canoa furada da política que naufragou antes de alcançar a outra margem. Difícil mesmo é aturar o Malafaia falando em nome da igreja sem ninguém do segmento para rebatê-lo.

Sem saída, Eduardo Bolsonaro foge para os EUA com três objetivos claros:
Desgastar Lula internacionalmente;
Pressionar pela queda de Alexandre de Moraes;
Conseguir anistia para os condenados do 8 de janeiro — o que beneficiaria diretamente seu pai.

A cartada: pressionar os EUA a impor sanções ao Brasil.
O plano: tentar usar isso como moeda para barganhar a tal anistia.
Tudo isso, até agora, caminha para um fracasso retumbante. O Brasil não abriu mão da sua soberania e, no fim das contas, o tarifaço afeta apenas 3% das exportações brasileiras — portanto, nada que não se resolva por aqui mesmo.

Com a pancada, o clã Bolsonaro entra em colapso interno. Carlos Bolsonaro chama governadores de direita de “ratos”, e Eduardo, o Zero Três, manda o próprio pai “tomar no c…”.
Cadê o respeito? E o slogan “Deus, Pátria e Família”?

E para apertar ainda mais a corda, aparecem R$ 30 milhões na conta do senhor Jair.
E agora, José?
Chegou a hora de a onça beber água, e do gado comer lama.

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