André Mendonça, o novo Moro das eleições de 2026

Por Benedito Dias

Todo mundo que tem olho viu. Claro, tem gente que viu e leu. Tem gente que viu, leu, mas fingiu que não viu nem leu. Tem gente que viu, mas não soube ler. E existem os cegos de conveniência.

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A direita brasileira, cansada de perder eleições pelo voto, resolveu lutar pelo poder pelo atalho: impichando a presidente Dilma Rousseff.

Naquela sessão de impeachment que envergonhou a história, o então deputado Jair Bolsonaro dedicou seu voto às atrocidades praticadas por seu ídolo, o coronel Brilhante Ustra — o mesmo que torturou Dilma quando ela esteve presa pelo regime militar. Ali, a máscara caiu e o projeto foi anunciado sem disfarce.

De lá para cá, a direita adormecida, indefinida, sem programa e sem povo, acordou com os gritos do impeachment e ganhou as ruas sob a égide de uma moralidade de fachada.

Entra em cena Sergio Moro: forçou a barra do processo penal, produziu provas como quem planta mandioca em terreno alheio e participou da condenação de Lula a nove anos de prisão — numa referência debochada e cruel aos nove dedos do operário. Condenado, Lula ficou inelegível e impossibilitado de concorrer em 2018.

Moro prestou um imenso serviço à direita e foi muito bem pago por isso. Abandonou a toga, virou ministro da Justiça de Bolsonaro, com a promessa de uma cadeira no STF.

Logo no primeiro ano de mandato, Bolsonaro se insurgiu contra investigações da Polícia Federal, dizendo à imprensa que não iria deixar “f… a sua família” e que trocaria todo mundo, até o ministro, se fosse preciso. Foi em meio a esse vergonhoso posicionamento do ex-presidente que Sergio Moro, então ministro da Justiça, abandonou o governo.

A trama ruiu. A condenação foi anulada pela Suprema Corte, que considerou incompetente a Justiça Federal de Curitiba para julgar o caso. Lula voltou ao poder em 2023 e segue com chances reais de reeleição.

E agora, José?

Surge o novo Moro.

Não estou dizendo que André Mendonça seja Sergio Moro. Claro: Moro é Moro, Mendonça é Mendonça. Estou dizendo apenas que a atuação de Mendonça lembra a de Moro.

Mais forte, mais culto, mais centrado e mais preparado, mas também mais precipitado, o ministro André Mendonça, sem tempo para construir um caso contra Lula — por não haver, até aqui, elementos públicos que o sustentem — partiu para cima do filho do presidente, embora o relatório da Polícia Federal que estava sobre sua mesa não apontasse Lulinha como investigado nas fraudes do INSS.

Qual é a tática da direita?

Construir a velha cortina de fumaça.

André Mendonça arma a arapuca para Lula. Seu plano, além de ir para cima de Lulinha, também seria acusar Alexandre de Moraes perante o próprio STF, desviando o centro das atenções. É como mágica de circo barato.

Repare: hoje já não se fala tanto no diálogo de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. Não se fala tanto no filme “Dark Horse”, financiado por meio de recursos administrados pelo Banco Master. Não se fala tanto nos R$ 134 milhões que Flávio teria solicitado a Vorcaro para produzir um filme que ninguém viu. Tampouco se fala dos R$ 62 milhões que teriam sido destinados ao projeto — o Azarão que parece estar vindo de Jabuti para o cinema brasileiro.

Ninguém fala mais no tarifaço de Trump, supostamente solicitado por Eduardo Bolsonaro contra o Brasil. Ninguém fala que o próprio Flávio defendeu um bombardeio americano na Baía de Guanabara.

E o governo Bolsonaro, que não fez uma obra relevante em quatro anos? E a vacina negada? E a cloroquina empurrada goela abaixo no momento histórico mais decisivo da vida do povo brasileiro?

O novo Moro está em cena, com a mesma toga, mas com um verniz mais refinado. Seja qual for a decisão do STF sobre Alexandre de Moraes, o prejuízo político, na narrativa que Mendonça parece querer emplacar, será de Lula.

André Mendonça, o armador de arapuca, vive na obrigação de ajudar Flávio. É débito. Afinal, ser ministro da Suprema Corte custa caro.

Ele quer investigar todos os nomes citados no celular de Vorcaro, menos Flávio Bolsonaro. Este, pelo visto, seria um anjo sem asas — apesar de tudo o que ainda precisa ser esclarecido.

A arapuca está armada, a isca está posta. Só falta saber se o pássaro-povo vai cair.

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