Por Benedito Dias
Neste domingo, em todo o Brasil, as Assembleias de Deus estarão estudando, na tradicional Escola Bíblica Dominical, o tema: “Abigail: sabedoria que desarma conflitos.”
Li o estudo. Logo depois, deparei-me com discursos e frases irônicas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — crente e tudo mais — chamando o presidente Lula de cachaceiro sem vergonha, pinguço, irresponsável, mentiroso. Em dezembro de 2023, no Portal Alex Braga, Michelle ironizou um “velhinho de vermelho e barba branca”, sugerindo: “Passado o Natal, velhinho de vermelho e barba branca, se tiver 9 dedos, liga 190.”
O mundo dá voltas. Hoje, seu marido, Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar e, ao que tudo indica, seu destino jurídico não parece dos mais tranquilos. A vida entrega de volta as encomendas que nós mesmos enviamos — meus pacotes, os seus e os de todos nós.
Apresentando-se como evangélica – não sei desde quando – e seguidora do pastor Silas Malafaia, Michelle já deveria ter aprendido algumas lições bíblicas sobre mulheres que, ao contrário dela, usaram sabedoria para evitar tragédias. Ester tornou-se rainha e, com coragem e discernimento, evitou um genocídio (Ester 4, 5 e 7). Abigail, por sua vez (1 Samuel 25), colocou o próprio corpo entre a espada de Davi e a estupidez de Nabal.
A Bíblia diz que “a mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola a derruba com as próprias mãos.” Michelle, ao que parece, escolheu a segunda parte.
Nabal era rico, dono de terras, ovelhas, gado e plantações. Era o tipo de fazendeiro que vê o lucro crescer, mas a própria alma minguar. Naquele tempo, salteadores atacavam durante as colheitas; mesmo assim, Davi e seus homens — fugidos de Saul, mas íntegros — protegiam silenciosamente os bens de Nabal, evitando prejuízos enormes. Quando Davi precisou apenas de comida para seus homens famintos, Nabal não só negou, como debochou.
Davi se enfureceu. O massacre seria inevitável. No mato, sem comida, liderando 600 homens armados, Davi estava pronto para retribuir a ingratidão do fazendeiro. Negar pão a quem tem fome sempre foi uma forma de violência. A atitude de Nabal, guardadas as proporções, lembra o negacionismo do então presidente que, enquanto o povo morria por falta de vacina, mandou comprar na casa da mãe.
Mas entra Abigail — ponte onde havia abismo, luz onde reinava a tolice. Sem que Nabal percebesse, ela reuniu alimentos, animais e servos. Correu ao encontro de Davi, falou com humildade e inteligência, e evitou sangue inocente. Usou a cabeça e o coração.
Michelle, ao contrário, prefere usar a língua ferina. E se a língua, por si só, já é venenosa, imagine quando empregada para desmerecer pessoas, espalhar mentiras, deboches e manipular igrejas inteiras em nome de “Deus, Pátria e Família”.
Hoje, se tiver um mínimo de sensatez — como qualquer pessoa comum — talvez esteja refletindo sobre o monte de bobagens que disse e continua dizendo. Sob o manto da fé, roda o Brasil dando palestras gospel, participando de cultos, congressos e eventos políticos, travestida de piedade e conquistando multidões. Mas fica a pergunta que ninguém ousa fazer:
Quem é o pastor de Michelle?
Onde ela congrega?
Qual é sua denominação?
Quem é sua família espiritual?
Com quais irmãos ela caminha?
E mais: vive em harmonia com os filhos do marido? É público que o clima familiar no Alvorada era pouco amistoso — a mesa nunca foi lugar de comunhão. A autoproclamada guardiã da família brasileira não parece exatamente o retrato da “célula mater”.
Enquanto isso, o ‘ex-presidiário de nove dedos’, como a direita santa diz — porque, segundo Michelle, a esquerda é maligna — carrega um histórico familiar bem mais estável que o da ex-primeira-dama.
Pois bem — a roda da história girou. O preconceito e o deboche contra fisicamente desiguais — devidamente atualizados para o contexto — mostram Bolsonaro inteiro, com seus dez dedos, mas… sem liberdade e algumas coisas mais.
Que um dia seja ‘ex’, sim — mas não por menos de 580 dias; afinal, quem planta mais, colhe mais.
Nabal ficou dez dias duro como pedra e morreu. Bolsonaro, ao menos, tem a chance de se arrepender. É o que desejo










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