Mais de 300 pessoas participaram de uma manifestação pacífica na Praia do Rosa Sul, reafirmando que proteger a natureza é também preservar a identidade, a história e o futuro do litoral catarinense.
Há momentos em que uma comunidade escolhe falar sem levantar a voz. Em vez de palavras de confronto, escolhe o silêncio respeitoso. Em vez de divisões, prefere estender as mãos. Foi exatamente isso que aconteceu na manhã de 12 de julho, quando moradores, pescadores artesanais, surfistas, pesquisadores, empresários, estudantes, representantes de entidades ambientais e famílias inteiras formaram um grande abraço simbólico na faixa de areia da Praia do Rosa Sul, em Imbituba.
Mais do que um ato público, aquele encontro tornou-se uma demonstração de pertencimento. Um gesto simples, mas carregado de significado, que reuniu centenas de pessoas em defesa da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, patrimônio natural criado em 2000 para proteger um dos mais importantes berçários da baleia-franca-austral no Atlântico Sul, conciliando conservação ambiental e uso sustentável do território.
O movimento ocorreu em meio às discussões sobre o Projeto de Lei nº 849/2025, cuja tramitação ganhou urgência na Câmara dos Deputados e reacendeu o debate sobre os limites terrestres da unidade de conservação. A mobilização foi organizada de forma pacífica, reunindo diferentes setores da sociedade em torno de uma mensagem comum: a importância de preservar um território que representa riqueza ambiental, cultural, científica e econômica para Santa Catarina.
A cena registrada na Praia do Rosa impressionou pela diversidade. Não havia um único perfil de participante. Havia crianças, idosos, jovens, pesquisadores, trabalhadores do mar, visitantes e moradores que encontraram naquele abraço uma forma de expressar seu vínculo com um lugar que ultrapassa a beleza de suas paisagens.
Porque a APA da Baleia Franca não protege apenas as baleias.
Ela abriga restingas, dunas, lagoas costeiras, manguezais, costões rochosos e remanescentes de Mata Atlântica, formando um dos ecossistemas mais ricos e sensíveis do litoral brasileiro. Todos os anos, durante o inverno, esse trecho da costa catarinense recebe baleias-francas que chegam para reproduzir-se e cuidar de seus filhotes em águas mais calmas e seguras, transformando a região em referência internacional para pesquisa, turismo de observação e educação ambiental.
Mas talvez a maior lição daquele domingo tenha sido outra.
Quando centenas de pessoas deram as mãos diante do mar, não estavam apenas defendendo uma unidade de conservação. Estavam reafirmando que desenvolvimento e preservação não precisam caminhar em direções opostas. Pelo contrário. Em cidades como Imbituba, onde o oceano molda a economia, a cultura e a identidade da população, proteger os recursos naturais significa também proteger oportunidades, fortalecer o turismo responsável, incentivar a pesquisa científica e garantir qualidade de vida para as futuras gerações.
A história de Imbituba sempre esteve ligada ao mar.
Se um dia a região foi conhecida pela atividade baleeira, hoje é reconhecida justamente pelo compromisso com a recuperação da espécie, tornando-se um dos principais símbolos brasileiros da conservação da baleia-franca. Essa transformação representa uma das mudanças mais significativas da relação entre sociedade e natureza: do tempo da exploração para o tempo do cuidado.
Talvez por isso o abraço tenha emocionado tantas pessoas.
Ele lembrou que as grandes mudanças nem sempre começam em gabinetes ou plenários. Muitas vezes nascem de gestos coletivos, da consciência de uma comunidade e da compreensão de que determinados patrimônios pertencem não apenas à geração presente, mas também àquelas que ainda virão.
Naquela manhã de inverno, o mar permaneceu o mesmo.
As ondas continuaram quebrando na areia, o vento percorreu as dunas e o horizonte manteve sua imensidão. O que mudou foi a certeza de que existe uma comunidade disposta a caminhar lado a lado quando o assunto é proteger aquilo que faz de Imbituba um lugar único.
No fim das contas, aquele abraço não cercou apenas uma praia.
Abraçou uma história.
Abraçou uma identidade.
E, sobretudo, abraçou o futuro.









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