Mais do que uma celebração religiosa, a Festa em Homenagem a Iemanjá, realizada pelo Terreiro Luz dos Orixás, tem se consolidado em Imbituba como um marco de respeito, diálogo inter-religioso e transformação social. Em sua quarta edição consecutiva, o evento reafirma o papel das religiões de matriz africana como espaços de acolhimento, caridade, amor e construção comunitária.
Segundo Vany Miguel, dirigente espiritual do Terreiro Luz dos Orixás, a principal motivação para manter a festa viva ano após ano é perceber a mudança concreta no olhar da sociedade imbitubense. “O que me motiva é ver o quanto a nossa comunidade tem aberto os olhos para a nossa crença. Não se trata de pedir tolerância, mas de sermos vistos e respeitados mostrando quem somos”, afirma.
A caminhada não foi simples. A realização de eventos públicos ligados às religiões de matriz africana sempre encontrou resistência, silêncio institucional e episódios de intolerância. Ainda assim, o trabalho persistente, baseado na transparência, no diálogo e na vivência da fé, começou a gerar frutos. O reconhecimento veio por meio da participação crescente da população e da diversidade de pessoas presentes nas celebrações.
No ano anterior, a festa reuniu um público recorde na praia, reunindo não apenas umbandistas, mas simpatizantes e pessoas de diferentes religiões, todas unidas pelo respeito. Para Vany, esse é o maior sinal de que a missão está sendo cumprida. “Ver pessoas de outras crenças prestigiando com respeito a nossa homenagem a Iemanjá mostra que estamos no caminho certo.”
A festa integra um processo mais amplo de visibilidade e afirmação das religiões de matriz africana no município, que inclui iniciativas como o Dia Municipal do Culto aos Orixás e ações sociais desenvolvidas pelo terreiro ao longo do ano. O Luzes Orixás atua como espaço de apoio emocional, espiritual e humano, acolhendo quem procura ajuda sem qualquer distinção de crença, profissão ou origem.
“O terreiro é braços abertos. Não se pergunta no que a pessoa acredita. A gente acolhe”, resume Vany.
Iemanjá: amor, acolhimento e força feminina
A escolha por homenagear Iemanjá carrega um significado profundo. Para além do ritual, a celebração comunica valores universais. Iemanjá representa o amor incondicional — o amor de mãe que acolhe, protege, ensina e também estabelece limites. É o arquétipo do cuidado, da gestação, do lar e da força feminina que sustenta e defende.
“Iemanjá é o colo, é a doçura, mas também é a braveza de uma mãe que luta pelos seus filhos. Ela nos ensina o perdão, o não julgamento e a amar profundamente”, explica a dirigente espiritual.
Esses valores fazem da festa um símbolo potente em diferentes partes do mundo e, em Imbituba, reforçam uma mensagem urgente: união, paz, humildade, igualdade e respeito às diferenças — princípios que ultrapassam qualquer fronteira religiosa.
Consciência ambiental como princípio espiritual
Outro pilar fundamental da celebração é o cuidado com o meio ambiente. Em respeito ao mar, considerado o reino de Iemanjá, a organização orienta que não sejam utilizados objetos poluentes, como barquinhos artificiais, garrafas ou vidros.
A comunidade é convidada a levar apenas rosas brancas e velas azuis, reforçando a consciência de que preservar a natureza é também um ato de fé. “Não podemos destruir aquilo que nos dá força e bênçãos”, reforça Vany.
Após a homenagem, a programação inclui o tradicional banho de cheiro e o descarrego com os caboclos, encerrando a celebração em um momento de renovação espiritual e conexão coletiva.
Fé que resiste, ensina e transforma
A realização do quarto ano consecutivo da festa simboliza uma vitória construída com persistência. Para quem já enfrentou episódios de intolerância religiosa dentro do próprio espaço sagrado, cada edição representa não apenas uma celebração, mas um ato de resistência e libertação da ignorância.
“É uma caminhada árdua, mas gratificante. Ver os apoios chegando, ver a população se aproximando, querendo conhecer nossa história e nossos projetos, mostra que a venda está sendo retirada dos olhos das pessoas”, afirma.
A Festa em Homenagem a Iemanjá, em Imbituba, reafirma que fé também é educação, cultura, cuidado coletivo e compromisso com a vida. Uma celebração que honra o sagrado sem excluir, que acolhe sem perguntar e que ensina, pelo exemplo, que o amor — como o de uma mãe — é a força mais transformadora que existe.

















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