A direita na encruzilhada: agradar o mercado ou enganar o eleitor?

Benedito Dias

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Os economistas fazem contas. Munidos de planilhas, matemática e escolas teóricas, chegam a diagnósticos muito parecidos: enquanto o Brasil não desvincular os reajustes salariais dos aumentos das aposentadorias, o país não crescerá. É o velho bolo servido apenas na mesa da elite.

Segundo essa lógica, a expectativa do mercado em relação a um candidato da direita é clara e objetiva: promover uma nova reforma da Previdência, sempre apresentada como técnica, inevitável e “responsável”, mas cujo efeito concreto é empurrar o trabalhador cada vez mais para longe da aposentadoria. A primeira reforma elevou de 35 para 40 anos o tempo de contribuição para a aposentadoria plena; a próxima, ao que tudo indica, pretende transformar esse direito em uma promessa escatológica — algo reservado ao porvir, à vida do além, talvez ao descanso eterno. Trabalha-se a vida inteira e, se tudo der certo, aposenta-se na eternidade. Nesse mesmo pacote, a direita considera necessário impedir que aposentadorias acompanhem reajustes salariais e reduzir — ou esvaziar — programas sociais como Bolsa Família, Pé-de-Meia, auxílio-reclusão e similares. Em síntese, qualquer centavo destinado aos pobres é tratado como desperdício. Para a Faria Lima, solidariedade não fecha planilha.

O mercado aposta no arrocho. A palavra é feia, mas honesta. O discurso tenta suavizar: não se trata de negar pão a quem tem fome, dizem, mas de “estimular a dignidade pelo trabalho”. Trabalhar, produzir renda e se sustentar — isso é fato — deve ser o objetivo de todos. O problema é que nem todos conseguem mais correr nessa esteira. Falta de qualificação num mercado cada vez mais excludente, idade avançada, doença, invalidez. Existe vida e vida, pessoa e pessoa, gente e gente. A coisa não é igual; a roda financeira não gira para o mesmo lado. Por isso, os disparates sociais não cabem nas fórmulas econômicas.

É nesse ponto que entra o Estado. Afinal, quem hoje não trabalha, ontem trabalhou. Produziu, contribuiu, pagou impostos, sustentou a máquina pública. É justo desampará-los agora? Deixá-los à própria sorte? Condená-los à fome em nome do chamado “equilíbrio fiscal”?

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O paradoxo é cruel: a direita, no discurso, promete crescimento para todos, mas, na prática, aceita aumentar tudo — menos o salário e a dignidade do povo. O cidadão comum vira estatística. Zé Ninguém é Zé Ninguém, e pronto. É só um número, que não deve ser incluído nas contas do mercado. Aqui, a fórmula é subtração.

Politicamente, o dilema é antigo e atual ao mesmo tempo: “Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.”

Se o candidato da direita disser abertamente ao mercado — “vamos fazer tudo isso” — perde votos. Porque o eleitor sabe, ainda que intuitivamente, que o rico segue cada vez mais rico, enquanto o ajuste sempre sobra para os mesmos.

O mercado exige um Estado menor. E reduzir o Estado, nesse vocabulário, significa vender o que resta: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Correios, Petrobras e, quem sabe, até o SUS. O Sistema Único de Saúde, aliás, sempre esteve atravessado na garganta de Paulo Guedes. Bolsonaro não avançou mais nesse projeto porque lhe faltou tempo. Se tivesse sido reeleito — ou se tivesse logrado êxito em sua aventura golpista — o resto do patrimônio público teria ido a leilão sem cerimônia.

O que parte do povo ainda não percebeu é que o governo passado vendeu aeroportos, subsidiárias do Banco do Brasil, ativos do pré-sal, a Eletrobras e outras estatais. O dinheiro sumiu como água em areia quente. Grandes obras não apareceram. Desenvolvimento estrutural não veio. A promessa evaporou.

E agora?

O candidato da direita dirá o que a Faria Lima quer ouvir ou esconderá do eleitor o preço real da agenda econômica? Dirá a verdade ao mercado ou enganará o pobre com slogans vazios?

No Direito Penal, o silêncio é um direito.
Na política, o silêncio é sentença de derrota.

A direita está na encruzilhada. Se não falar o que pretende fazer, engana o pobre; se falar o que quer fazer, perde a eleição.

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