Zezé Di Camargo, o SBT e quando o “É Amor” vira birra

Por Benedito Dias

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Vi o vídeo do sertanejo Zezé de Camargo, gravado de regata, na madrugada que se seguiu à inauguração do STB News, novo braço jornalístico do SBT. Confesso que, num primeiro momento, achei que se tratava de inteligência artificial — dessas que fazem o inacreditável parecer real e o real parecer piada. Afinal, a tecnologia hoje imita vozes, recria rostos e até ressuscita artistas mortos. O problema é que não era tecnologia, era birra. Fiz leitura labial, ouvi com atenção, revi o vídeo. A conclusão foi frustrante: era o próprio Zezé. Sem filtro, sem edição, sem lucidez.

Ali não falava apenas um cantor insatisfeito, mas um homem incomodado com a visibilidade do presidente da República em um ato de inauguração de mais uma emissora — concessionária de serviço público no Brasil. Chamou o Sistema Brasileiro de Comunicação de “prostituta”. No evento havia diversos políticos, entre eles Tarcísio de Freitas, mas o olhar do ressentimento só enxergou Lula. O que havia de errado? Nada. As Abravaneis agiram com naturalidade institucional e respeito às autoridades. Silvio Santos faria o mesmo. Sempre soube dialogar com governos, quaisquer que fossem eles.

O equívoco começa quando a emoção atropela a razão. Televisão aberta não é extensão de camarim ideológico. É serviço público explorado mediante concessão da União, formalizada por decreto presidencial e sujeita à aprovação do Congresso Nacional. A relação institucional das emissoras com o Presidente da República não é adesão política, mas protocolo republicano. Ignorar isso não é convicção — é birra.

O sertanejo fez um pedido — quase um apelo — para que o SBT não exibisse seu especial de fim de ano “Natal É Amor”. As Abravaneis, claro, entraram em pânico: executivos aflitos, cabelos arrancados, duplicatas vencendo, folha de pagamento de jornalistas, técnicos e produtores, contratos de satélite, tecnologia, transmissão, manutenção, retransmissoras espalhadas pelo país, impostos, obrigações regulatórias, fornecedores na porta — e, no meio desse incêndio permanente que é manter uma rede nacional no ar, Zezé cancela o especial. Está cancelado? Sim. Mas não apenas o programa. O que se seguiu foi um cancelamento às avessas: virtual, simbólico e concreto. Shows questionados, fãs desistindo, público que já não quer ver Zezé nem pelas costas. O artista tentou puxar o freio de mão da emissora e acabou sendo atropelado pela própria reação que provocou. Até o amigo Eduardo Costa, em raro momento de lucidez pública, pediu: “Para, reflete, não ponha sua mão no fogo…”. Música com pouco de música, é verdade, mas, nessas horas, curiosamente útil — quase um salmo sertanejo de advertência.

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Meu Deus! E os fãs? Achando graça. Rindo disso tudo até a conquista do quarto mandato do presidente Lula.

O episódio ganha contornos mais profundos quando se observa o simbolismo envolvido. Zezé construiu sua narrativa pública exaltando o próprio pai: o homem simples, persistente, que acreditou nos filhos quando ninguém acreditava. Essa memória emocionou o país. Eu mesmo chorei assistindo Os Filhos de Seu Francisco. Zezé e seu irmão, para sobreviver, com sanfona no peito e chapéu de coleta no chão, esperavam pingar moedas para o sustento. Era o início de uma carreira brilhante. Justamente por isso, causa espanto ver o mesmo Zezé recorrer à figura de um pai alheio — Silvio Santos — para criticar as filhas, como se estas estivessem traindo a própria história.

A contradição é gritante. Quem edificou sua imagem reverenciando o pai agora instrumentaliza a memória de outro para atacar os filhos. Não se trata de política, mas de coerência moral — ou da falta dela.

Parafraseando Søren Kierkegaard,  dinamarquês, pai do existencialismo: “A vida só pode ser entendida olhando para trás.” Zezé veio do Brasil pobre, do interior, da escassez. Rodou o país, cantou com nossa gente, enriqueceu dialogando com o povo. Criticar um presidente que estrutura políticas voltadas prioritariamente aos mais pobres, mesmo com erros e acertos, é ingratidão, porque ao fazê-lo, esquece de onde se veio e para quem se cantou.

O sertanejo lidera entre os mais os pobres – os consumidores da sofrência. E quem ajuda os pobres? Ah, deixa para lá!

Silvio Santos atravessou governos, regimes e crises sem jamais confundir institucionalidade com ideologia. Foi amigo de presidentes sem precisar vestir camisa partidária ou gravar vídeos ressentidos. Entendia, como poucos, que concessão pública exige maturidade, não chilique. É razoável supor que, estivesse vivo, teria feito exatamente o que suas filhas fizeram.

Excesso de vaidade, esquece de que a história de um artista deve ser maior que um vídeo de irritação gravado de madrugada.

Este texto é um lamento. Lamento ao ver alguém menor do que a própria biografia. Zezé se apequena, se corrói. Já foi maior, mas perdeu Luciano, perdeu a voz, perdeu Zilú, e agora perdeu a noção.

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