MODELO BUKELE DE SEGURANÇA PÚBLICA PARA O BRASIL: QUEM QUER?

Por Benedito Dias

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Não sei se por falta de noção, excesso de ignorância ou puro populismo barato, mas qualquer político que vislumbre aplicar o modelo de segurança pública de El Salvador no Brasil está atuando como instrumento de institucionalização da barbárie.

O modelo de Nayib Bukele é um regime de exceção permanente. A Constituição Federal brasileira proíbe esse tipo de atalho autoritário porque aprendeu que, num país historicamente marcado pela pobreza e pela extrema desigualdade social, o combate real à violência passa por duas colunas mestras da administração pública: educação de qualidade e geração de emprego. É isso que gera dignidade real. Já se discutiu bastante sobre pena de morte e outros tipos de punição cega, mas a justiça — que tantas vezes é seletiva — condenaria pobres no lugar de ricos. Um bom advogado inverte o ônus da prova para o andar de cima, enquanto o povo da periferia paga a conta.

A maioria esmagadora do povo brasileiro ignora a verdadeira gênese da tragédia salvadorenha. Apenas consome, via discursos da extrema-direita, a narrativa simplificada de que o país era um inferno e Bukele trouxe a salvação de forma mágica. Mas a história não começou ontem.

A violência embrionária em El Salvador explodiu após a sangrenta guerra civil iniciada em 1980, que forçou o êxodo de mais de 500 mil salvadorenhos rumo aos Estados Unidos. Concentrados nas periferias de Los Angeles, muitos jovens imigrantes, vulneráveis e segregados, integraram-se às gangues urbanas americanas, onde se “diplomaram” na arquitetura do crime organizado.

Na década de 1990, com as novas leis de deportação em massa aprovadas pelo Congresso americano em 1996, milhares desses jovens foram despachados de volta a uma pátria devastada pela guerra e sem instituições para recebê-los. As gangues que aterrorizam El Salvador não nasceram nas montanhas salvadorenhas; foram exportadas diretamente de Los Angeles. O Estado salvadorenho foi omisso e ausente ao longo de 30 anos, adubando a horta da violência para a criminalidade florescer.

Aí surge Bukele vendendo o aprisionamento em massa como panaceia. A partir de março de 2022, decretou o “Regime de Exceção” e construiu masmorras medievais sob holofotes de propaganda internacional.

Nessas prisões de segurança máxima, a dignidade humana foi reduzida a zero: homens e jovens dormem no chão frio de concreto, sem colchão, sem ventilação, sem banho de sol, sem assistência médica, sem visitas e sem direito a um advogado. Há denúncias estarrecedoras de tortura psicológica e de carcereiros que lançam a comida na lama, estipulando minutos para que os detentos comam como animais. Há cerca de 90 mil encarcerados — uma escala estarrecedora para um país de apenas 6 milhões de habitantes. Dentre os encarcerados, conforme estimativas de organizações de direitos humanos, cerca de 30 mil podem ser inocentes – presos apenas por estarem no lugar errado ou por terem uma tatuagem.

São bandidos? A maioria sim. São infratores da lei? Com certeza. Mas continuam sendo seres humanos. E o método para resgatar a ordem numa sociedade não pode ser a cópia dos métodos aplicados pelo mundo do crime.

Nenhum indivíduo nasce vocacionado ao crime. É o Estado que, por ação ou omissão brutal, cria o abismo onde o jovem é empurrado para a facção. Por isso, a resposta do Estado nunca pode ser de exceção ou vingança, mas de presença institucional soberana: escola em tempo integral, formação técnica, crédito para quem quer empreender e trabalho formal para quem precisa de futuro.

Segurança pública baseada no massacre de direitos é apenas vingança com verniz eleitoral. E a vingança nunca gerou paz; apenas aduba cemitérios e perpetua a injustiça.

Querem copiar El Salvador? Copiem a negligência de três décadas para corrigi-la com a presença luminosa do Estado educando e empregando a juventude antes do crime, e não apenas trancando os corpos depois dele.

Na política, é preciso ter virtudes que tragam para a mesa o debate pragmático: sensibilidade pública, honestidade, inteligência e vontade de fazer. Se for para copiar, que copie soluções legítimas e duradouras — e não atalhos autoritários mascarados de eficiência.

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