COM O DEDO NO NARIZ:

O DARK HORSE PRODUZIDO POR EMPRESA DE INTERNET

Por Benedito Dias

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A fossa que liga a Brasilândia a Hollywood, passando pela Paulista e pelo cofre dos aposentados. Ponha o dedo no nariz para não embrulhar o seu estômago. Aperte bem. Se não apertar, você vomita. Se respirar fundo, infecciona o intestino. É podridão de abaixar urubu. É fossa estourada no meio da rua e chamam de chafariz.

A Prefeitura de São Paulo, do prefeito Ricardo Nunes, contratou o tal Instituto Conhecer Brasil (ICB) por R$ 108 milhões para levar internet grátis para a periferia. Sério? Sério! Está no Portal da Transparência. Repassaram R$ 69 milhões. A Polícia Civil foi lá medir o sinal do Wi-Fi. Só R$ 43 milhões viraram roteador e fio. O resto, R$ 26 milhões, é alvo de investigação por suposta fraude.

Aí vêm perguntas, e não acusações:

Quem é o ICB? O ICB é da dona Karina Ferreira da Gama. E quem é Karina Ferreira da Gama? Essa é a pergunta que mais interessa.

Até ser contratada pela Prefeitura da maior cidade do Brasil, Karina morava numa casinha simples na Brasilândia, zona norte de São Paulo, com a mãe, num terreno que é da própria Prefeitura. Jornalista sem jornal, sem canal, sem notícia, sem nenhum filme no currículo, sem nenhuma torre de telecom no quintal — de repente, aconteceu o salto da Brasilândia para o corredor da Faria Lima, o endereço mais nobre de São Paulo, onde o mercado manobra os índices que enchem e abarrotam as contas bancárias dos poderosos.

Depois do contrato, segundo a apuração policial, Karina passou a declarar como residência o mesmo imóvel comercial na Rua Haddock Lobo, 746, 3º andar, perto da Avenida Paulista. Um escritório cujo aluguel e condomínio somam R$ 18 mil e que era pago com dinheiro do Wi-Fi que não chegou na favela.

Essa mesma Karina é sócia da Go Upa Entertainment, a produtora do filme Dark Horse: O Azarão, o épico de R$ 75 milhões sobre Jair Bolsonaro. Como é que uma instaladora de internet que sobe no poste com escadinha e puxa fio até o seu telhado vira, do dia para a noite, produtora de Hollywood? Me explica? Não explica. Porque não é o mesmo CNPJ, mas é o mesmo CPF. É a mesma pessoa, a mesma dona. É o mesmo bolso. A Go Upa nunca produziu nem filminho de festa junina na Paulista, segundo os registros da ANCINE, e agora produz longa com ator gringo? Você está de brincadeira comigo!

E o dinheiro para o filme é a fossa que mais fede. Áudio atribuído a Flávio Bolsonaro o mostra pedindo R$ 134 milhões para o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme. R$ 61 milhões já teriam entrado. O Banco Master não era banco de guardar dinheiro de rico; era banco que administrava fundo de pensão de servidor público. Dinheiro de aposentadoria de gente que trabalhou 35 anos carimbando papel em prefeitura. Dinheiro público que virou pó. E o Flávio, com a cara mais limpa do mundo, diz que não é dinheiro público.

O fedor está na conexão. A polícia apura se parte dos R$ 26 milhões que deveriam virar Wi-Fi foi parar na produtora do filme. O roteiro de Dark Horse se confunde com o roteiro da família Bolsonaro nos EUA. Esse é o cano de esgoto que liga a Brasilândia a Hollywood.

Aqui não se afirma que houve crime. Afirma-se que há duas investigações — uma da Polícia Civil de SP e outra da Polícia Federal — que apontam para a mesma pessoa. Ninguém viu a Karina em reunião de roteiro, ninguém viu a Karina em reunião com o prefeito, ninguém viu a Karina negociando em Los Angeles. Ninguém viu nada, porque nada se produziu e nada ninguém vê.

  • Cadê o filme?
  • Cadê a prestação de contas?
  • Cadê o advogado do Eduardo Bolsonaro que também mexeu no dinheiro da produtora?
  • Quem sustenta o Zero Três nos Estados Unidos?
  • Quem paga ou pagou a mansão onde ele mora?
  • E por que a dona de tudo, Karina Ferreira da Gama, ainda não está no centro do inquérito?

O leitor já sabe quem é Karina. Mas, na identificação real da jornalista que virou dona de produtora de Hollywood, segundo Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação do ex-presidente Jair Bolsonaro, Karina é boi de piranha.

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