Por Benedito Dias
Está no bar, na igreja, no WhatsApp. O que vou falar, apenas organizei.
O que dizer do eleitor pobre que depende do SUS, que a direita quer privatizar? Do que se formou porque Lula criou o ProUni e o Fies? Do que tem casa própria porque a esquerda lançou o Minha Casa, Minha Vida? Do que foi atendido pelo Mais Médicos, que Bolsonaro fez questão de acabar?
O que passa na cabeça do pobre quando vê Bolsonaro falando palavrões e estimulando a população a comprar armas? Não parece uma proposta que transfere do Estado para o cidadão a responsabilidade pela segurança pública, fazendo com que cada pessoa tenha de cuidar da própria defesa?
Há outro ponto que quase ninguém lembra: ele próprio afirmou, anos atrás, que sonegava impostos sobre tudo do que ganhava. Isso acabou sendo esquecido. Já a postura em relação à vacina contra a Covid — contestada por ele há apenas cinco anos — deveria permanecer na memória. Enquanto o país enfrentava a pandemia, muitos morreram enquanto o então presidente travava disputas políticas com João Doria. A vacina era chinesa; o Butantan, estadual; Doria, pré-candidato à Presidência. Interesses políticos pareceram maiores que a vida. Dane-se o povo.
O que dizer do pobre quando vê o mito discriminar negros, homossexuais, mulheres e obesos? Quando defende tortura e pena de morte num país de pobres, onde a Justiça falha e o negro de boné e bermuda já é tratado como bandido pela polícia? Como entender um candidato da direita chamando morador de rua de “lixo humano”, nordestino de burro e o Nordeste de “peso” para o resto do Brasil?
Meu professor de Direito Constitucional dizia, durante a aula:
“Vamos andar mais um pouquinho!”
Era sinal de matéria longa.
Bolsonaro sempre criticou o Bolsa Família. Desde a criação, classificou o programa como um estímulo ao “nascimento de pobres”. Em 9 de fevereiro de 2011, no plenário da Câmara, foi o único deputado a votar contra políticas de combate à fome e à pobreza. Disse:
“O Bolsa Família nada mais é do que um projeto para tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda…”
Em 2013, chamou os pobres com muitos filhos de “irresponsáveis”:
“Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso… Só para isso e mais nada serve.”
Como entender, então, o voto do pobre no Clã?
E o que acham dos projetos sociais permanentes — Bolsa Família, cesta básica, cheque-cidadão e restaurante popular?
Em outro momento, fez proposta para restringir o nascimento de pobres, defendendo a esterilização de mulheres de baixa renda.
Disse que a educação não é porta de saída da pobreza e que somente o controle da natalidade poderia nos salvar do caos (falas de 2008 e 2011, respectivamente).
Em 1992, afirmou que era preciso dar meios para controlar a prole de quem, lamentavelmente, era ignorante:
“Devemos adotar uma rígida política de controle da natalidade. Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender a esses miseráveis que proliferam cada vez mais por toda esta nação.”
Lembra do slogan de 2022? “Deus, Pátria e Família”, com “Liberdade” junto.
Liberdade? Para quem?
“Não pode, no Brasil, ter essa liberdade de cada um ter quantos filhos quiser sem ter condições para sustentá-los.”
Vamos andar mais um pouquinho!
Lembra quando ele disse que não obedeceria a uma ordem do STF? E quando o “Zero Três” falou que bastariam um cabo e um soldado para fechá-lo? Lembra do 7 de Setembro de 2021? Milhares estavam na Praça dos Três Poderes, em manifestações de apoio ao governo e de pressão contra o STF. A multidão esperava uma ordem para invadir a Suprema Corte, mas isso não ocorreu porque as Forças Armadas não embarcaram na ideia confrontista.
As confusões mais recentes do país têm origem na ilusão do poder eterno. Tem gente que reza nas quatro linhas da Constituição, mas, na hora de passar a faixa, esquece o rosário e parte para o quebra-quebra. O resultado é gente processada, presa, famílias divididas, igrejas rachadas, deputados cassados e foragidos. Tudo por causa do mito.
E o evangélico — pastor ou membro — que conhece a Bíblia e ignora a famosa frase “Bandido bom é bandido morto”? Isso é um disparate teológico. Uma contradição nítida com os ensinamentos de Jesus. É coisa demais para a cabeça.
Conclusão:
Votar é um direito, mas votar contra a própria história, contra si mesmo, contra programas que tiraram famílias da miséria, contra a saúde, contra a escola… isso precisa de explicação.
É ódio ao Lula? É aversão ao PT? É falta de informação? É uma contradição entre a própria história e o próprio voto? Não sei!
Vamos andar mais um pouquinho. Quem sabe, caminho afora, a pergunta sensata encontre uma resposta que, no mundo do perdão, ache uma desculpa.









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