A lenda brasileira do basquete se foi, mas deixou lições que ultrapassam as quadras.
Em tempos de interesses pessoais turvos, corrupção institucionalizada e valores distorcidos, causa estranheza quando encontramos alguém coerente. Coerente com valores, sejam eles familiares, morais, sociais ou nacionais.
O Brasil se despede de um ícone do esporte e, ao mesmo tempo, relembra um episódio que revela algo raro: firmeza de caráter.
Em determinado momento da carreira, Oscar Schmidt recusou a oportunidade de atuar na NBA. Não por falta de talento — isso lhe sobrava —, mas porque, à época, as regras impediam jogadores da liga de defenderem suas seleções nacionais.
Ele foi direto, como um arremesso no estouro do cronômetro: “Lá era só um clube; aqui é um país inteiro.”
Oscar estava de que clube é vínculo profissional, contratual e transitório; país é identidade, pertencimento, símbolo — é alma.
Simples. Sem marqueteiro, sem roteiro. Uma frase que hoje vale — e vale muito — mais do que discursos travestidos de verde e amarelo.
Entre o brilho dos dólares e o peso da bandeira, ele escolheu permanecer fiel à representação do Brasil, em qualquer lugar.
Não vou falar de basquete. Deixo isso para quem entende do assunto.
Quero falar de algo mais escasso: patriotismo de verdade.
O que se vê, hoje é um patriotismo curioso — daqueles que erguem a bandeira do Brasil com uma mão e, com a outra, acenam para interesses estrangeiros.
Gritam “Brasil!” da boca para fora e pedem sanções econômicas contra o próprio país.
Defendem paz para si e intervenção estrangeira sobre o território pátrio.
Dizem amar a nação, mas não hesitam em torcer contra ela quando isso favorece suas conveniências políticas.
Um patriotismo de ocasião — quase alugado, com contrato de curto prazo e cláusula de conveniência.
Patriota? De qual pátria?
Oscar não fez discurso. Fez escolha.
E escolha que custa caro é a única que revela convicção.
Ser patriota não é transformar símbolo nacional em acessório de moda ideológica.
Não é usar a bandeira como cachecol retórico, nem como figurino de ocasião.
Não é vestir verde e amarelo, mas vestir responsabilidade — e lutar pelo país acima de qualquer lado ideológico.
Durante toda a minha vida escolar, vi tambores rufarem, desfiles acontecerem, o hino nacional ser executado — e nós, com a mão sobre o lado esquerdo do peito, cantando emocionados.
Defender o povo, seus valores, o torrão e suas fronteiras; trabalhar na construção do desenvolvimento nacional e na garantia dos direitos fundamentais — que sempre existiram como ideal, mas foram ampliados e consolidados pela Constituição de 1988.
Isso era verdade.
Crescemos entendendo que isso era patriotismo: defender os símbolos e os princípios constitucionais da República brasileira.
Depois — sim, depois — o trem desandou.
A nossa bandeira foi banalizada.
Virou roupa, estandarte de opinião, uniforme de manifestações travestidas de civismo.
Cachecol, pashmina, estola, lenço, xale, cinto — usa-se no pescoço, na cabeça, na cintura.
Um verdadeiro desfile de coleção do nacionalismo de fachada.
Ser patriota virou moda, não civismo.
Tendência, não compromisso.
Virou calendário, não caráter.
E, pior: instrumento de grupos econômicos, de políticos sem propostas e de seguidores que confundem barulho com virtude — e, não raro, ainda encontram tempo para cheirar e engraxar botas alheias.
Nesse cenário, a atitude de Oscar Schmidt ganha outro peso.
Não foi apenas esportiva — foi moral.
Enquanto muitos fazem do Brasil um discurso, ele fez do Brasil uma escolha.
E isso — diferente de certos patriotismos de vitrine — não desbota, não rasga e não sai de moda.
Isso não se veste, mas se vive.










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