Santa Catarina, responsável por mais de 91% da produção nacional de ostras, enfrenta uma crise sem precedentes na atual safra. A estimativa do setor é de uma perda de até 90% da produção, cenário atribuído principalmente aos impactos das mudanças climáticas, que já afetam diretamente produtores, trabalhadores e consumidores.
O maricultor Paulo Antônio Constantino, que atua há três décadas no setor, relata um dos momentos mais difíceis da carreira. Segundo ele, o prejuízo já chega a R$ 1,5 milhão.
“Era para ter em estoque hoje aproximadamente de 20 mil a 30 mil dúzias de ostra. Hoje eu não tenho 300 dúzias”, afirmou.
Diante da escassez, produtores têm recorrido a alternativas emergenciais para manter alguma receita. Uma delas é a venda de ostras classificadas como “refugo”, que ainda não atingiram o padrão ideal de comercialização.
“Não é uma ostra pronta para comercialização. Porém, como não existe mais nada, nós estamos embarcando o que tem”, explicou Constantino.
A crise também já impacta o emprego no setor. O produtor afirma que precisou demitir funcionários e que, nos próximos dias, sua fazenda deve operar apenas em meio período, focada na manutenção da estrutura.
A situação se repete em outras regiões produtoras, especialmente no sul da Ilha de Santa Catarina, principal polo de maricultura do estado. Produtores relatam perdas ainda durante o processo de manejo, com grande parte das ostras sendo descartada antes mesmo de chegar ao mercado.
Vinicius, produtor e presidente de uma associação de maricultores, destaca a incerteza no setor. “Trabalhamos com 20 colaboradores, cinco, infelizmente, já tivemos que desligar. Não sabemos como será a situação nas próximas semanas”, disse.
O impacto ocorre justamente em um período de alta demanda, como a Semana Santa, quando o consumo de frutos do mar tradicionalmente aumenta. Com a oferta reduzida, consumidores já começam a sentir os efeitos, seja na menor disponibilidade ou no aumento de preços.
Mudanças climáticas no centro da crise
Especialistas apontam que o principal fator para a mortalidade das ostras é o aumento da temperatura da água do mar. Pesquisadores da Epagri identificaram picos de calor acima do normal nos meses de janeiro e fevereiro, criando condições adversas para o desenvolvimento dos moluscos.
Além disso, alterações ambientais associadas às mudanças climáticas também contribuem para agravar o problema, afetando a qualidade da água e a sobrevivência das ostras.
Setor busca alternativas e cobra apoio
Diante do cenário crítico, produtores e entidades do setor discutem alternativas para reduzir os prejuízos e garantir a continuidade da atividade. Uma das estratégias em análise é a mudança no modelo de comercialização, com maior foco em produtos processados, como a carne de ostra cozida e inspecionada.
A Federação de Empresas de Aquicultura também defende medidas emergenciais e políticas de longo prazo, incluindo maior acesso a crédito para os produtores.
O governo estadual anunciou uma linha de financiamento com juros zero, limitada a R$ 50 mil por produtor. No entanto, representantes do setor consideram o valor insuficiente diante dos prejuízos milionários acumulados.
“Nossos investimentos são muito altos. Precisamos de um volume maior de crédito para conseguir manter a atividade. Esse valor é irrisório frente ao que estamos enfrentando”, afirmou Constantino.
A crise na produção de ostras em Santa Catarina expõe, mais uma vez, os efeitos concretos das mudanças climáticas sobre a economia e reforça o desafio de adaptação de setores tradicionais diante de um cenário ambiental cada vez mais instável.









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