Por Benedito Dias
“Sede simples como as pombas e prudentes como as serpentes.” Com essa frase Jesus aconselhou seus discípulos quando os enviou a pregar o evangelho. Recomendou que fossem sábios, íntegros e humildes.

Nikolas Ferreira apareceu de repente na praia de ondas fortes do litoral bolsonarista. Achando-se a última Coca-Cola do deserto, o mineirinho chegou a enfrentar o gigante Flávio Dino em reunião da CCJ da Câmara dos Deputados, acusando-o, ainda que de forma insinuada, de ligação com organização criminosa.
A suposição, carregada de interesses políticos e desprovida de verdade, surgiu pelo simples fato de Dino, na condição de ministro da Justiça, ter entrado na Favela da Rocinha — algo que deveria ser considerado dever elementar de quem realmente pretende combater a violência e o tráfico de drogas no país.
Na concepção do deputado, não haveria hipótese de alguém que não fosse morador da comunidade subir o morro da Rocinha vivo e descer de lá fora de um caixão.
Dino, com a sapiência que lhe é peculiar, conseguiu desarmar o mineirinho eufórico e explicar que quem não deve, não teme.
Semanas antes, também na CCJ, o deputado bolsonarista André Fernandes pesquisou no Jusbrasil e extraiu dali 277 processos, segundo ele, contra Dino. Na ocasião, questionou o ministro sobre seu suposto envolvimento em tantos processos e perguntou como alguém nessa condição poderia ocupar o cargo de ministro da Justiça.
O despreparo do parlamentar cearense chegou a constranger setores da própria direita. Puxar a “ficha criminal” de alguém no Jusbrasil é, no mínimo, uma piada jurídica.
O próprio Flávio Dino ironizou o episódio e disse que guardaria aquilo como anedota para contar aos seus alunos. Alegou nunca ter respondido a processo criminal e explicou que, como ex-juiz federal, seu nome aparece em inúmeros registros judiciais.
O Jusbrasil é uma plataforma que indexa publicações judiciais. Nela aparecem partes, testemunhas, advogados, juízes, denunciantes, autoridades e até amicus curiae. Naturalmente, o nome de Dino está presente em muitos processos simplesmente porque ele os julgou durante doze anos de magistratura.
Pois bem. A direita cercou Dino de todas as formas na tentativa de desmoralizar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O efeito, porém, foi o inverso: o ministro acabou notabilizando-se como um debatedor extremamente preparado.
Ao contrário do que costuma dizer Ciro Gomes — ele próprio um expoente da inteligência brasileira —, o Ceará, que sempre se destacou pela qualidade intelectual de seus estudantes, viu-se constrangido pela derrapada do deputado André Fernandes, tendo de suportar por algum tempo as chacotas nas redes sociais — uma espécie de vírus nos neurônios cearenses, culpa do sem noção do ridículo.
E Nikolas?
Badalado nas redes sociais, considera-se a última bolacha do pacote. Crítico de todos e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, agora parece defender a própria moral empacotada a vácuo.
Depois da caminhada de Paracatu a Brasília — que terminou com chuva, trovões e raios e levou vários participantes ao hospital — Nikolas deu um tempo. Agora surge novamente, acusado de usar aviões de empresários investigados por fraudes e negócios criminosos.
A imagem que se forma é a de um santo de barro, que se desmancha quando começa a chuva.
A Bíblia ensina que quem semeia, colhe. Também ensina que a casa construída na areia não resiste à tempestade.
Nikolas, que criticou Flávio Dino insinuando relações dele com o crime organizado ao entrar na Rocinha, terá dificuldade de convencer qualquer cidadão minimamente atento de que usar avião de empresários envolvidos em negócios ilícitos é diferente de subir o morro.
Em 2022, no segundo turno da eleição presidencial, o deputado usou avião de Daniel Vorcaro — preso, acusado de rombo bilionário que compromete aposentadorias de milhares de servidores — para fazer campanha para Bolsonaro em pelo menos nove estados. Em 2024 surgem viagens do parlamentar em aeronaves de operadores de jogo do bicho e caça-níqueis, atividades ilegais.
Diante disso, fica a pergunta inevitável:
Como permanece sua acusação contra Flávio Dino?
Se, na lógica apresentada pelo deputado, quem entra em favela pertence a organização criminosa, então quem usa avião de bicheiros seria o quê?
Se subir o morro da Rocinha significa ser aliado de traficantes, viajar em aeronaves de fraudadores do sistema financeiro significaria o quê?
A menos que a honestidade tenha cor, sotaque, aspecto físico e seja medida por viés ideológico, não há outra explicação.










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