Por Benedito Dias
A política, na prática, precisa fazer diferença concreta na vida das pessoas. A direita insiste em um discurso esgotado — um lenga-lenga que já se tornou insuportável aos ouvidos de parte significativa do povo. Chato como música de uma nota só, ele ecoa na Avenida Paulista, em Copacabana, na Liberdade de BH e em outras capitais. As imagens aéreas sugerem multidões, mas, comparadas ao que já foram, as manifestações encolheram.
Em ano eleitoral, sem propostas políticas consistentes, a direita parece caminhar em uma direção, enquanto o povo segue em outra. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não ostenta índices espetaculares de aprovação — reflexo também de uma cobertura crítica e permanente da grande mídia —, mas, na prática, entrega obras, amplia programas sociais como o Bolsa Família, trabalha para manter a inflação sob controle, reduz impostos para os mais pobres e busca convivência institucional com todos os setores: ricos, pobres, religiões, partidos e até com a própria direita que o confronta.
Enquanto isso, o palanque substituiu o projeto. A indignação tomou o lugar da proposta. O grito ocupou o espaço do plano de governo, e Alexandre de Moraes virou palavra recorrente em discursos inflamados.
O contraste é evidente. De um lado, o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda mobiliza apoiadores fiéis, mas cada vez mais restritos a um núcleo ideológico duro. De outro, Lula percorre o país inaugurando obras, retomando políticas públicas e reconstruindo pontes institucionais que haviam sido implodidas.
A direita aposta na fotografia aérea da manifestação. O governo aposta na fotografia da obra entregue. Uma rende curtidas. A outra rende votos.
O povo pode até se encantar com discursos inflamados por algum tempo. Mas, diante da geladeira vazia, o discurso não se sustenta. Live não paga aluguel. Meme não financia estudo. Palavra de ordem não enche barriga.
O Brasil está longe de ser um paraíso — e não é. Mas também não vive a dramaticidade do passado recente. A inflação mostra sinais de controle, programas sociais redistribuem renda, o crédito voltou a circular e o desemprego recuou. Pode não ser o Éden, mas há um horizonte menos árido. Política de blablablá costuma cheirar a fracasso.
Parte da direita insiste em uma narrativa apocalíptica: fogo, fim, destruição. O brasileiro médio, porém, quer Gênesis: recomeço, construção, oportunidade, emprego e renda.
Lula demonstra habilidade no palanque, mas enfrenta dificuldades na comunicação institucional. Se fala bem às multidões, nem sempre traduz essa conexão em uma estratégia clara e organizada de comunicação de governo. A narrativa oficial se perde, enquanto os adversários ocupam espaços com mais agilidade. Além disso, setores mais radicalizados da esquerda, vez por outra, geram ruídos desnecessários e desgastantes. Governar exige entrega — mas também exige coordenação.
A política é implacável com quem não entende o tempo histórico. Quem vive de saudade corre o risco de virar nota de rodapé. Quem entrega resultados, mesmo sob críticas, permanece competitivo.
A direita ainda pode se reinventar. Mas, para isso, precisará trocar o eco pelo diálogo, o ressentimento pela proposta e o palanque pela planilha. Caso contrário, continuará discursando para o mesmo grupo.
Dias atrás, ouvi a pergunta: “Por que, onde Bolsonaro chegava, se cercava de multidões, e Lula anda por aí quase só? Cadê o povo da esquerda?” Levei a indagação a um amigo octogenário, mãos marcadas pelo cabo da enxada. Ele respondeu em verso: “A esquerda é empregada, a direita é patrão. A esquerda cumpre jornada; a direita, não.” Fiquei pensando na lucidez daquela cabeça branca.
Os conservadores que se apresentam nas manifestações são, em grande medida, os mesmos de ontem, hoje e sempre. Vão do Oiapoque ao Chuí para ouvir a música de uma nota só. O discurso da Paulista nem sempre encontra eco no bolso do brasileiro comum — e o bolso costuma ser mais honesto que o palanque.
No Brasil real — o do supermercado, do boleto e do emprego — discurso sem entrega é apenas ensaio. E ensaio nem sempre vira espetáculo. Às vezes, o palanque cai na primeira música.
O Brasil exige mais que manifestação. Exige projeto.










Publicar comentário