O SAMBA POLÍTICO

Se a esquerda samba, a direita dança, é   isso?

ANUNCIO

A direita está furiosa porque a escola de samba Acadêmicos de Niterói resolveu homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no carnaval carioca.

O medo não é o desfile, e sim a fotografia simbólica: Lula sendo carregado pelo imaginário popular, embalado pelo tamborim e televisionado para o país inteiro. A política, quando entra na avenida, desfila sem pedir licença — e isso assusta adversários mais do que qualquer comício.

Aos 81 anos, em seu terceiro mandato, Lula tornou-se um personagem raro da história contemporânea. Gostem ou não, é um líder que insiste em permanecer no palco quando muitos já teriam sido convidados a se retirar. A simples hipótese de um quarto mandato faz muita gente acordar de madrugada, arrancando os cabelos — e, ao se olhar no espelho pela manhã, já se assusta com os sinais de alopecia política.

Do outro lado, a direita — que durante anos caminhou quase envergonhada, carregando o peso histórico da fama de insensibilidade social e aversão aos mais pobres — acabou encontrando, mais adiante, um personagem sem papas na língua. Trocou os sussurros atrás das portas pelo megafone, sem medo de ser infeliz.

A questão foi judicializada. Fala-se em campanha antecipada. Argumento frágil. Homenagem cultural não é palanque. Proibir manifestação artística por seu conteúdo político seria censura — e censura, numa democracia, é como desligar o som da bateria no Sambódromo Marquês de Sapucaí: mata o desfile e faz muita gente arrancar os poucos cabelos que restam.

A inteligência política de plantão costuma não errar. Pode até acertar, mas eu não apostaria.

Em 2019, cerca de 70% do eleitorado evangélico aderiu ao candidato da direita. Esse contingente não apenas cresceu como se espalhou de forma capilar pelo país. Hoje, estimativas apontam algo em torno de 60 milhões de fiéis, dos quais aproximadamente 40 milhões são eleitores. É um universo que decide eleição majoritária. Nenhum candidato minimamente lúcido pode se dar ao luxo de ser indiferente a esse público.

Pesquisas recentes já indicam um empate técnico entre Lula e a direita dentro desse segmento — algo impensável poucos anos atrás. E é exatamente nesse momento de aproximação que surge o dilema: seria inteligente associar-se a um evento que não dialoga com esse eleitorado?

A expressão cultural do carnaval se revela em um ambiente bem distante dos valores evangélicos. Lula, nesse ambiente, não interromperia a conexão ainda em construção com a igreja cristã brasileira?

É aí que mora o paradoxo.

Se, de um lado, a homenagem carnavalesca projeta Lula culturalmente, de outro pode afastá-lo de um eleitorado sensível à associação entre poder público e uma festa que muitos enxergam como incompatível com sua vivência religiosa. O risco não é jurídico. É simbólico.

O adversário maior transita pelos palcos da religião. Ele, que nunca se identificou como cristão, já ora — e ora chorando como um pentecostal canela de fogo. Vasculhando a internet, dificilmente se encontrarão registros antigos dessa devoção, mas, ainda assim, ela convence mais que a Sapucaí.

O samba político pode rolar, mas a inteligência pede cuidado.

A política é como o samba: exige harmonia. Quando um instrumento toca mais alto que os outros, o público percebe o descompasso.

O samba político pode até empolgar a arquibancada, mas eleição exige mais que avenida. Eleição está no silêncio dos templos, na roda de amigos, nas conversas de família, no rosário da missa e na percepção — muitas vezes invisível.

No fim das contas, mais do que vencer o desfile, é preciso cuidar do ritmo, porque, em ano pré-eleitoral, qualquer passo em falso vira tropeço. E, se cair de frente, quebra tudo — inclusive a cara.

Publicar comentário