Por Benedito Dias
Sem os devidos cuidados constitucionais preconizados pela Constituição Federal — que assegura o direito de reunião e manifestação em vias públicas, bastando a prévia comunicação à autoridade competente — Nikolas, o garoto mineiro empolgado com os primeiros aplausos, resolve transformar o asfalto em altar e a política em procissão.

Empolgado, talvez sem saber que “as mesmas mãos que hoje aplaudem são as que amanhã apedrejam”, o jovem deputado decide fazer uma caminhada de protesto contra o justo e supostamente legal. Uma caminhada que, curiosamente, tem pouco de penitência e muito de espetáculo: 240 quilômetros de lacração, embalados por carros de luxo, helicópteros cortando os céus, hotéis confortáveis e comida farta. Nada de deserto, nada de maná — apenas a exibição de abundância, num contraste gritante entre a cruz e o altar montado, bem distante da pobreza real, produto da indiferença de uma nobreza que se refresca despejando água mineral na própria cabeça para parecer suada, apenas para enganar. Tudo regado à saliva do ódio. Mais para um reality show messiânico do que para um ato profético.
Ao final da jornada, chegam a Brasília e são recebidos não por aplausos humanos, mas por raios e trovões, como se o céu resolvesse comentar o roteiro sem pedir autorização ao marketing político. O tempo fechou, o céu enegreceu, e a chuva caiu pesada, acompanhada de relâmpagos bem diferentes daqueles que marcaram a descida de Moisés do Monte Sinai. Lá, era Deus escrevendo a ordem constitucional de uma nação que, após quarenta anos de escravidão no Egito, marcharia rumo à terra prometida. Aqui, é Deus deixando claro que Seu nome é santo e não se mistura com protestos travestidos de fé, xingamentos, bebidas, cigarreiras, ódio, lacração e caprichos pessoais.
O pastor e deputado Marco Feliciano — veterano em empolgar plateias com histórias travestidas de evangelho, porque seus sermões caminham à margem da Bíblia — apressou-se em classificar o ocorrido como milagre. Estranha teologia essa, em que milagre vem acompanhado de ambulâncias e correria.
O que aconteceu em Brasília definitivamente não foi milagre. Poderia ter sido outra coisa, em outra circunstância. Mas milagre, não foi.
A chuva caiu exatamente na chegada, no momento em que o show em nome de Deus seria armado. E não era pouca coisa. Havia duas multidões: uma acompanhando o deputado empolgado; outra, já posicionada na Praça do Cruzeiro, em Brasília. Tudo pronto para o espetáculo: palco, microfones, “pastores” e “profetas” escalados para, mais uma vez, dizer o que Deus não mandou.
O resultado não foi avivamento. Foi boletim médico.
Mais de 70 pessoas atendidas nos hospitais de emergência do Distrito Federal.
Nove em estado grave.
A tempestade poderia ter ocorrido na saída, em Paracatu. Poderia ter surgido no meio do caminho. Poderia. Mas não. Aconteceu na hora do show.
Bênção ou punição?
Fica o alerta, especialmente aos que transformam o Nome Santo de Deus em slogan de campanha:
Cuidado. Não coloque Deus onde Ele não deseja estar









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