Orelha e a educação que faltou: como as escolas podem ser a resposta contra a crueldade

Por Júlia Opuski
Protetora de animais e criadora do projeto Ajude o Chico
Instagram: @ajude_o_chico

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Seu nome era Orelha. Vivia ali há dez anos, parte daquela comunidade que o via diariamente. Havia familiaridade naquele vínculo, uma relação de confiança construída ao longo de uma década entre um cão e uma comunidade que o protegia. E foi precisamente essa confiança, essa docilidade, que o deixou vulnerável quando quatro adolescentes decidiram transformá-lo em alvo de violência gratuita. Os golpes foram cruéis o bastante para deixar sequelas neurológicas irreversíveis, sofrimento tão profundo que a morte se tornou a única saída compassiva.

Muitas crianças e adolescentes que maltratam animais crescem em ambientes onde violência é banalizada, onde ninguém ensina que dor é dor em qualquer corpo que pulsa. Alguns nascem com predisposições neurológicas distintas, com baixa capacidade de empatia ou tendências psicopáticas. Mas a maioria, a esmagadora maioria, é formada por escolhas e silêncios. E aqui está o ponto que grita: enquanto Santa Catarina aprova leis cada vez mais duras, seus filhos continuam crescendo sem nunca ouvir na escola que a dor de um cachorro é tão real quanto a sua.

Em 2025, Santa Catarina registrou mais de 6 mil denúncias de maus-tratos a animais, com aumento significativo em relação ao ano anterior, representando aproximadamente 15 denúncias por dia. Florianópolis lidera as denúncias no Estado, com 4.714 casos registrados. A resposta estatal foi endurecimento de penas: prisão de dois a cinco anos, multas até R$ 20 mil, ressarcimento de custos médicos. Tudo justo, tudo necessário. Mas há um ponto em que o sistema quebra: as leis punem quem já agrediu, mas não transformam quem ainda vai agredir amanhã. Estudos comprovam que abusadores de animais têm cinco vezes mais probabilidade de cometer crimes violentos contra pessoas do que quem não abusa. A ciência tem um nome para isso: Teoria do Elo.

Entretanto, quando uma criança aprende a reconhecer sentimentos, a respeitar vulnerabilidades, a conectar suas ações com consequências, ela muda. Seus comportamentos mudam. Suas escolhas futuras mudam. Traduzindo: ensinar empatia na sala de aula reduz a probabilidade de que aos quinze um adolescente bata num cachorro de rua. Quando crianças crescem em ambientes onde violência contra animais é banalizada, mais geramos futuras gerações prontas a repetir o ciclo porque ninguém nunca sentou numa carteira escolar e conversou com elas sobre empatia como matéria tão importante quanto português.

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A urgência não é apenas punição. A urgência é preventiva. É transformar o caso Orelha como exemplo do que não pode se repetir. É trazer senciência para Ciências, é integrar Teoria do Elo nas aulas de Sociologia, é convidar veterinários para rodas de conversa em Ética, é propor concursos de redação sobre guarda responsável e projetos onde alunos se tornam multiplicadores de proteção animal. É reconhecer que a defesa da vida não começa no tribunal, começa na sala de aula, no momento em que uma criança aprende que outro ser pulsa e sofre, e que respeitar isso é lei, responsabilidade e humanidade.

Leis salvam depois. Corações se constroem antes. Santa Catarina pode escolher formar gerações que respeitem os animais. Orelha viveu dez anos confiando em nós. Cabe a nós honrar essa confiança nas salas de aula e com os nossos futuros adultos.

Crédito da imagem:
Júlia Opuski, protetora de animais e criadora do projeto Ajude o Chico (@ajude_o_chico)

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