Nícolas Ferreira: caminhada da libertação ou lacração?

*A boiada voltou à estrada*

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Por Benedito Dias

Minas Gerais sempre produziu expoentes de grande reputação na política nacional. De Afonso Pena a Juscelino Kubitschek; de Magalhães Pinto a Tancredo Neves; de Aureliano Chaves a Itamar Franco, o estado construiu, ao longo das décadas, uma tradição de lideranças marcadas pelo equilíbrio, pelo diálogo e pela habilidade política. Esses personagens históricos devem estar se revirando no túmulo diante das desmedidas desse novo protagonista da cena mineira: um jovem aparentemente esperto e inteligente, mas ainda neófito, que parece confundir ação política com espetáculo permanente, substituindo o diálogo por intrigas, xingamentos e confusão.

Nícolas Ferreira, que dificilmente dobra a esquina a pé para ir à padaria, exibe-se nas redes sociais em uma “caminhada” de 240 quilômetros rumo a Brasília, cuidadosamente documentada para likes e engajamento. Impressiona como o oportunismo atrai: surge Magno Malta — ora de muletas, ora em cadeira de rodas. A cena é estranha, quase uma encenação, muito próxima de um espetáculo teatral. Caminhada da libertação ou da lacração?

Fico imaginando o povo atrás de Nícolas — e Nícolas atrás da lacração. Isso não é normal. É gado.

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Gado é gado, sempre tocado. Aliás, apesar de o termo ter sido apropriado pela esquerda, “gado” é criação da direita. Surgiu na reunião tumultuada de Jair Bolsonaro com seus ministros, em 22 de abril de 2020. Parecia brincadeira de crianças: um monte de descabeçados em volta de uma mesa, discutindo insensatezes pelos cotovelos, sem noção de história, de povo, da importância do local, do Estado, da República — e muito menos de decência.

Naquele encontro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu algo que soava como o primeiro passo de um golpe institucional: aproveitar o fato de a imprensa estar quase totalmente focada na pandemia de Covid-19 para “passar a boiada”, isto é, alterar regramentos dos ministérios — especialmente do Meio Ambiente — sem passar pelo Congresso Nacional. O objetivo parecia evidente: facilitar licenças para latifúndios e empresas garimpeiras, atropelando controles legais.

O “deixa passar a boiada” ganhou as manchetes e entrou para o vocabulário político nacional.

Curiosamente, a metáfora voltou às estradas. Travestida de justiça, é possível ver grupos de lavradores, berrante à boca, chamando o gado. A ideia agora vem de Minas Gerais, e Nícolas é o protagonista. Ele diz agir “em nome de Deus”. Mas Deus — ao menos para quem lê a Bíblia — não se envolve com esse tipo de coisa.

Um usa o nome de Deus para superfaturar; outro, no mesmo tom, pede bombardeio na Baía de Guanabara; outro organiza caminhada para “libertar” golpista. Deus está a anos-luz disso tudo.

O lema é sempre o mesmo: “tem que fazer alguma coisa, porque o Brasil não pode continuar do jeito que está”. Mas, afinal, que jeito é esse?

A gasolina tem preço controlado; a cesta básica caiu; o salário mínimo subiu acima da inflação e da média dos dois últimos governos; o desemprego caiu de forma significativa. O programa Minha Casa, Minha Vida está em pleno vigor; a saúde pública responde às necessidades da sociedade — ainda muito aquém do ideal, é verdade, mas infinitamente melhor do que no governo passado; a transposição do São Francisco ganha novos canais. Ainda assim, insiste-se na narrativa de que Lula é pior do que Bolsonaro.

Nícolas sabe que Bolsonaro fez por merecer. Ela pode ser amenizada? Talvez. Mas caminhada não resolve. Caminhada é lacração, é busca por visibilidade, é enganação — não é solução.

Curiosamente, quem agiu de forma mais pragmática foi Michelle Bolsonaro. Depois de muitas burradas, fez algo interessante — inteligente até: procurou o ministro Gilmar Mendes e, numa conversa direta, tratou da situação clínica de Bolsonaro. Bateu na porta certa.

É por aí.

O que resolve é humildade, reconhecimento do erro, pedido de perdão — se necessário. Isso ninguém quer fazer. Prefere-se colocar Deus na jogada para sensibilizar o povo.

E ainda há crente que se ilude com esse tipo de encenação, apesar de toda a orientação bíblica em sentido contrário.

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