Porto de Imbituba bate recordes de arrecadação e movimentação em 2025. Mas também se torna recordista em ignorar a cidade.

O Porto de Imbituba encerrou 2025 como um dos principais motores da logística catarinense, impulsionado por avanços estruturais, modernização tecnológica e resultados operacionais expressivos. Para o secretário de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina, o Imbitubense Beto Martins, os resultados refletem “uma operação disciplinada, equipes altamente qualificadas e investimentos que modernizam todo o complexo portuário, ampliando a competitividade e a sustentabilidade das operações”, declarou ele na retrospectiva do porto em 2025.

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O diretor-presidente da SCPAR Porto de Imbituba, Christiano Lopes, reforça essa avaliação ao destacar, na mesma retrospectiva, que “os resultados de Imbituba comprovam que Santa Catarina está colhendo os frutos de um planejamento sério, de uma governança alinhada e de investimentos que priorizam eficiência e tecnologia. O Porto de Imbituba tem se consolidado como um ativo estratégico para o Estado, gerando competitividade para nossa indústria, fortalecendo o agronegócio e ampliando nossa presença nos mercados internacionais. O desempenho de 2025 reafirma que estamos no caminho certo para transformar a infraestrutura logística catarinense em referência nacional”.

A única coisa que eles não dizem, é o custo que esse desenvolvimento cobra da cidade de Imbituba. Ano após ano, os reflexos negativos na qualidade de vida da população vêm se mostrando cada vez mais visível e danoso. A polêmica do coque continua perturbando os moradores do entorno. A associação dos moradores da rua de baixo, já ajuizou vários processos no sentido de mitigar ou eliminar os efeitos do deposito desse material, que vai desde a sujeira, com casas, roupas e janelas cobertas pelo pó preto cancerígeno, danos a saúde das pessoas e danos ambientais diretos e mesmo assim, nenhuma ação efetiva foi tomada pelo Porto ou pela Votorantim, responsável pelo manuseio, armazenamento e venda desse produto. Além disso, esse material depositado a céu aberto, é levado pelo vento, principalmente o de nordeste, afetando uma boa parte da cidade e também, faz com que durante as chuvas, a água contaminada por ele, vaze para o mar, prejudicando a fauna marinha e a qualidade de vida dos moradores e pescadores da praia do Porto.

A lógica que hoje opera o Porto, é muito parecida com a da antiga ICC, os danos são justificados pelos resultados e lucros alcançados.

Não podemos esquecer que o atual diretor presidente do Porto, Christiano Lopes, na eleição de 2016, ao lado do então governador Raimundo Colombo, defendia a instalação da Cattalini na cidade. Posição que só mudou depois que a pressão popular o fez ver que a perda de votos seria muito grande e que melhor seria desistir da ideia.

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Mas mesmo sem Cattalini, o fato de ter defendido o empreendimento, mostra uma visão, uma concepção de desenvolvimento, onde tudo o que importa são os índices econômicos e o resto é mera consequência do progresso, um preço justo a se pagar diante dos resultados. Talvez por isso, não se tenha visto ainda, nenhuma atitude em relação as melhorias que poderiam ser implementadas na relação Porto/Cidade.

Imbituba não foi projetada para ser uma cidade sede de um Porto gigante. E por isso sofre com qualquer mudança operacional, até porque, elas nunca são acompanhadas de mudanças estruturais e isso deixa a cidade cada vez mais fragilizada.

Caminhões com sobrepeso, cargas espalhadas pelo longo da via de acesso norte, sujeira e mau cheiro, não combinam com o projeto de uma cidade turística e aí mora o grande problema. Enquanto a cidade tem uma vocação para a preservação e exploração sustentável de seus bens naturais, empresas como o Porto, tentam lhe impor um projeto de desenvolvimento industrial, onde tudo importa, menos o belo e o natural.

Tendo como diretor presidente um imbitubense que já sonhou e tentou, ser prefeito da cidade, o que se esperava, era que essa relação tivesse um total revés, e que o respeito e a responsabilidade com as vocações e qualidade de vida de Imbituba, fossem predominar.

Não há um dado oficial sobre o quanto o Porto repassa em recursos, através de impostos, para a cidade de Imbituba. Mas Do ponto de vista operacional, o Porto registrou desempenho acima das expectativas. Entre janeiro e outubro, foram movimentadas 6,17 milhões de toneladas e realizadas 268 atracações, com destaque para outubro, o mês mais movimentado do ano, com 714,7 mil toneladas e 27 navios atendidos. As exportações somaram 2,53 milhões de toneladas, puxadas por coque calcinado, coque não calcinado e farelo de milho.

As importações chegaram a 2,86 milhões de toneladas, aumento de 2,5% em relação ao mesmo período de 2024, com destaque para as cargas de hulha betuminosa, sal e insumos industriais. A cabotagem também cresceu, totalizando 547,3 mil toneladas embarcadas e 136,8 mil desembarcadas, enquanto o transbordo registrou salto expressivo de 113,1% em comparação ao ano anterior. Os granéis sólidos permaneceram como principal segmento, representando 77,8% da movimentação, e a carga conteinerizada respondeu por 17,3%, ultrapassando 1,06 milhão de toneladas. No comércio exterior, o porto movimentou mais de US$ 1,44 bilhão no acumulado, reafirmando seu papel estratégico para a balança comercial de Santa Catarina. Mas fazendo pouca diferença para a vida de quem vive na cidade de Imbituba.

Mesmo com esses números fantásticos, de acordo com a retrospectiva 2025, o Porto investiu R$ 170 mil que foram destinados a entidades locais por meio das quatro edições (2022 a 2025) do Arraiá do Porto, enquanto mais de 8 mil visitantes participaram do programa “Porto de Portas Abertas”, desde o início do projeto.

Somados, cultura, esporte e projetos sociais receberam cerca de 700 mil reais em investimentos ao longo deste ano (2025).

Não precisa nem dizer que esse “investimento“ não foi feito por renuncia, ou seja, o Porto não pode dar dinheiro, ele precisa usar as leis de incentivo ao esporte e cultura e projetos sociais, que no final das contas, terminam sendo descontados dos impostos devidos aos entes estatais.

O Porto é importante e todos sabemos disso. Ele esta ali, não tem como tirar ou desistir dele, mas muito pode ser feito na mudança de relacionamento com a cidade. Não há sentido se falar em benefício para o estado de Santa Catarina, se isso não começar pela cidade de Imbituba.

Em visita realizada em maio de 2025, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, anunciou um expressivo pacote de investimentos para o Porto de Imbituba e para a infraestrutura da cidade, totalizando mais de R$ 60 milhões em ações. Os recursos visavam ampliar a eficiência logística, modernizar o porto e melhorar a integração com o município. Nesse pacote, havia o anuncio de cerca de R$ 35 milhões, provenientes dos lucros do próprio porto, em melhorias na infraestrutura urbana de Imbituba. Quase um ano depois, nada foi feito e o que foi iniciado, como as obras de recuperação da Av. Renato Ramos, por exemplo, não chegaram a se concretizar e nem tem data prevista, para que isso aconteça.

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