A visita do bispo Samuel Ferreira a Lula expõe a mudança de ventos no campo evangélico — e desperta a fúria de quem confundiu o púlpito com palanque e o Evangelho com sigla partidária.
O bispo Samuel Ferreira, presidente da Assembleia de Deus de Madureira, atravessou os portões do Planalto e foi recebido pelo presidente Lula. Um sorriso, um abraço, uma Bíblia e uma foto — e pronto: foi o suficiente para cair um raio em Jerusalém. Silas Malafaia, autoproclamado porta-voz dos evangélicos no Brasil, entrou em combustão instantânea. Afinal, estaria outro pastor dialogando com o “comunista que fecharia igrejas”?
A cena, por si só, já levanta uma pergunta: será mesmo verdade tudo o que disseram sobre Lula na campanha de 2022? Desde 2017, os púlpitos das igrejas brasileiras, de modo indevido e imoral, se transformaram em palanques; os sermões, em santinhos eleitorais; e a responsabilidade bíblica com a verdade, em fake news com capa de evangelho.
Nas redes sociais e nos cultos, quando alguém precisa mencionar o número 13, o que se ouve é “12 + 1”. Ignorância, embuste, desonestidade intelectual? Não sei, mas não tenho dúvida da desinformação e da hipocrisia — afinal, o ministério de Cristo foi formado por 13 pessoas: Ele e mais 12.
O Messias da Galileia foi substituído por outro — de sobrenome Bolsonaro — e quem discordava era tratado como herege. Agora, quando o altar descobre que o “mito” era uma mentira de carne e osso, o bispo de Madureira aparece sorridente ao lado daquele que seria supostamente o Anticristo.
Malafaia reagiu com aquela “mansidão pastoral”, aquele “espírito conciliador” e aquela “calma angelical”, sabe? “Povo abençoado do Brasil…!”
Chamou a foto de traição, acusou Samuel Ferreira de vender a alma e fez o que sabe fazer melhor: transformar indignação em espetáculo.
É compreensível. Por anos, Malafaia acreditou que o segmento evangélico era um condomínio fechado, com ele de síndico vitalício, usando a Bíblia — interpretada ao sabor da sua ambição — como regimento interno.
A visita de Samuel Ferreira pode não ser, mas parece um aceno político na direção contrária do bolsonarismo.
A Assembleia de Deus marchou em bloco com Bolsonaro. Estaria agora ensaiando outro caminho? Não se sabe, mas a dúvida é legítima: estamos diante de oportunismo, covardia ou frustração com o “mito”?
Não raro, em pleno culto, a liturgia era interrompida para receber o mito: se oração, louvor, pregação, o que fosse — para tudo! Jesus sai, o mito entra, e a glória humana começa.
O “mito” foi pregado com mais entusiasmo do que o próprio Evangelho.
Agora, o vento parece mudar a direção da vela do barco.
As nuvens carregadas estão sendo sopradas para longe.
O sol aparece e brilha para todos.
Os meteorologistas informam mudança de clima político, obrigando ajustes nas velas da caravela para enfrentar o mar alto.
Uns chamam isso de “sabedoria”; outros, de “sobrevivência”.
Mas o nome mais honesto seria instinto de poder.
E quanto à velha narrativa de que Lula era comunista e fecharia as igrejas?
Pois bem — enquanto na China prendem pastores, aqui comunistas abraçam evangélicos, e as igrejas seguem abertas, lotadas e lucrativas.
Os templos não fecharam; o que se fechou foi o ciclo da ilusão política que confundiu fé com fanatismo e religião com partido.
É curioso ver como a santidade eleitoral evapora quando o poder muda de endereço.
Ainda há os míopes da fé, que enxergam Bolsonaro como enviado divino, mas quem lê a Bíblia honestamente sabe: a Igreja é o corpo de Cristo — e Cristo não veste o seu corpo com roupas manchadas de corrupção.
O altar, percebe-se, não tem lado — tem interesse.
E Deus? Deus está fora dessas orientações partidárias.
A passagem do bispo Samuel Ferreira pelo Planalto não mancha sua fé, nem o descredencia como pastor.
Afinal, pastor não foi feito para brigar, mas para conciliar. Orar pelas autoridades é preceito bíblico — e, mais que isso, orar pelos inimigos é mandamento.
O campo evangélico talvez esteja se redirecionando. Quem sabe volte a empunhar o escudo da fé, em vez de arminhas; a Bíblia, em vez de grupos de WhatsApp manipulados; a cruz, em vez de bandeiras enroladas no pescoço.
Para o segmento evangélico, é a segunda vez que o véu se rasga e revela o acesso à verdade.
Na crucificação, o véu do templo rasgou-se, pondo fim à mediação sacerdotal entre Deus e os homens.
Agora, o véu político se rasga e expõe os fatos: o famoso slogan “Deus, Pátria e Família” era uma farsa.
Deus estaria mesmo no meio de tentativas de golpe, invasões, palavrões e mentiras?
Pátria sancionada e perseguida?
E a família? Nem se fala — virou campo de batalha entre o “disse” e o “desdisse”.
A verdade é que Malafaia não está furioso por zelo da Igreja, mas por ciúmes do poder.
Percebeu que o altar está trocando de ídolo — e isso dói mais do que qualquer heresia.
A Igreja brasileira, embora usufrua da liberdade constitucional de culto e de um crescimento numérico avassalador, ainda levará tempo para exorcizar o espírito mentiroso e ambicioso dos púlpitos — devolvendo o espaço à pregação do Evangelho genuíno.










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